JUST STANDING IN A DOORWAY


Galgos

 

 

Watching girls go passing by
It ain’t the latest thing
I’m just standing in a doorway
I’m just trying to make some sense
 Out of these girls go passing by
The tales they tell of men
 Jagger/K. Richards

 

O homem veio vindo, olhos vidrados na vitrine sem vidro do decote da moça. O sorriso destilando a embriaguez sem álcool da libido incontida. Na cara deslavada, o ar de tranquilidade era o esboço de desejos impublicáveis. Aquele sossego era pura euforia.
Distraída, a moça só tinha olhos para a elegância sutil de seus pets. O irrequieto casal de galgos que levava ali pela coleira. Os cães eram puro alvoroço e alegria. Leves e esguios eram a personificação da elegância desfeita em harmonia. Puro equilíbrio e simetria.
Envolvido na distração de seus impulsos, o homem foi-se aproximando da moça – olhos fixos na razão de seu deleite. A excitação fazendo festa em seu alvoroço. O bom humor abrindo sorrisos em seu entusiasmo.
E assim que se viram frente a frente, a distraída e o desatento, ele lentamente se abaixou, acariciou os cães com desinteresse e inquietação. E, no frenesi da embriaguez, olhos postos na vitrine sem vidro de seus delírios e transparências, sussurrou – eles são lindos!
Desatenta e displicente, com estudada indiferença, ela responde, enquanto acaricia… Os cães – eles também gostaram de você.
Sem desconcerto que lhe compensasse a decepção, com incontida malícia e agilidade, ele acrescenta – eu me referia aos seus… Olhos.

 

Avram Ascot
              ACF/020817   

Diploma embaixo do braço


 

no-sertao-era-assim

No sertão era assim – Avram Ascot
O mundo não foi feito em alfabeto.
Senão que primeiro em água e luz.
Depois árvore.
Manoel de Barros
Aqui no mato é assim, a gente aprende é com o vento. A geografia do mato quem ensina é o fogo. O leito seco do rio esperando a poeira líquida da chuva. Na cartilha do catingueiro, o bê-á-bá é outro. Pouco importa se é tatu, paca, preá ou gente. Aqui, todo bicho avoa.
Aqui, até planta sabe ler a caligrafia torta do tempo: o balé troncho da seca e da chuva. O senhor duvida? Então, veja o sorriso na cara do mandacaru, do crauá, quando fulora.
Aqui, até língua de passarinho a gente aprende. Aqui até quem não sabe ler é sabido. A gente toda já nasce conhecendo o lugar: a erva que mata e a que faz curar – coceira, pereba, doença séria, calundu ou leseira.
Vou dizer nada, não.  Aqui, escreveu não leu é defunto.  
Aqui, a gente aprende a caligrafia ligeira do vento. É preciso ler direitinho para entender o que ela diz, quando a língua assanhada do fogo lambe a boca assustada da caatinga.
Aqui, Terra e gente é tudo uma coisa só – peixe, rio, água corrente. Criação crescendo no quintal da gente: porco, galinha, cabrito. As frutas pendendo do pé – melancia, jaca, sapoti, carambola.  O vaivém do mato bulindo com a imaginação. Sabiá, bem-te-vi, sanhaço espiando a gente.
Aqui, preguiça a gente aprende é balançando na rede. Olhos pregados na lição do mato.
Aqui, se acorda, trabalha e dorme com descampados e matagais cariciando os sonhos da gente.
Então, o senhor doutor que esqueça esse seu diploma aí embaixo do braço.

 

Avram Ascot
ACF/O71222

A estranha


Não sou eu quem me navega

Quem me navega é o mar.

Paulinho da viola.

Vinda não se sabe de onde, a mulher chegou à minúscula cidadezinha e se instalou no extremo leste do povoado às margens do córrego que um dia tinha sido um enorme ribeirão, mas agora não era mais que um filetinho d’água abrindo caminho no meio do capinzal.

Era uma mulher alta e esguia cuja forte presença punha medo nas gentes. Os cabelos negros, a pele dourada, o rosto anguloso, os reluzentes olhos castanhos amendoados compunham uma imagem cujo fascínio se traduzia em medo.

No dia seguinte à sua chegada, o córrego cresceu e transbordou, voltando a ser um enorme ribeirão, que alargou suas margens e inundou a várzea inteira, fazendo emergir por toda planície uma exótica flora e fauna.

No verde do capinzal, pássaros, jabutis e felinos, há muito tidos como extintos, ressurgiram em todo seu colorido e exuberância. Sempre-vivas, violetas e azaléas esvoaçavam ao vento.

E tudo isso sem que caísse um mísero pingo d’água durante toda a noite e a manhã inteira. O céu permaneceu calmo, límpido e claro durante todo o dia, continuando assim por toda aquela semana e dias seguintes.

Por conta desse estranho fenômeno, toda gente muito se assustou e passou a chamar a intrusa do córrego de a feiticeira. Seus embruxos enfeitiçavam o ar exalando maus presságios. 

Tanta beleza só podia ter parte com o cão. Não bastasse a imponente figura, ela ainda mexia com os elementos. Terra, fogo, água e ar pareciam dobrar-se às suas vontades.

Era isso, ou todos estavam ficando loucos, quando viram, num inesperado piscar de olhos, o tamanho das hortaliças dobrar. Aquilo só podia ser o sintoma de alguma doença ruim.

E o que dizer da suavidade do vento, inesperadamente manso e refrescante. Naquelas lonjuras de lugar nenhum, a terra sempre fora seca e esturricada, carente de qualquer cobertura ou vegetação. E agora, vinha toda aquela verdura dar aos campos gramados e pastagens.

Em tudo o sorriso da bruxa punha outra alegria.

Enfeitiçados, os homens trabalhavam para além da conta sem procurar os porquês de toda aquela euforia. O ânimo das gentes ganhava outros rumos e poucos sabiam o que fazer com toda aquela euforia.

Os velhos festejavam a longevidade e prolongavam a existência para além de qualquer prazo ou validade. Num súbito improviso, a vida agora era uma dádiva e não havia porque se desfazer da existência.

Conscientes de seus dotes e atributos as mulheres reivindicavam direitos e sonhavam com inesperadas e insuspeitas igualdades. Tanto ativismo e militância só podia ser obra da bruxa.

Com todo aquele cheiro de fumaça, lenha alguma iria negar seu fogo.

Crianças e adolescentes cresciam e multiplicavam seus porquês, motivos e razões. A gurizada se revirava num enorme ponto de interrogação.  

Repentinamente progressiva e próspera, a cidade passou a questionar as razões de tantos e inesperados sucessos. De verdade mesmo, ninguém sabia o que fazer com toda aquela insurreição.

Aquilo estava começando a ficar com cara de subversão.

E se de repente o povo inventasse uma revolução. Quem iria controlar o furor da rebelião?

O prefeito, o delegado e o vigário começaram, então, a maquinar uma vingança azeitando as engrenagens do cérebro para dar à coisa-ruim as três cabeças do guardião do inferno.

Era preciso pôr um fim a toda aquela danação. Ao diabo a parte do cão. Mandaram, então, chamar a bruxa para que ninguém ouvisse mais a melodia de seus encantos – a sedução de seus perfumes, incensos e humores.

Os feromônios da feiticeira impregnavam o vento e o ar. A harmonia só voltaria a reinar naquelas paragens se dessem um fim àquele êxtase.

Santa Cruz do Ribeirão precisava voltar a ser o que sempre fora – bastião da moral e dos bons costumes. Um lugar de conduta limpa e de harmonia.

A bruxa veio imersa em um vistoso vestido branco todo esvoaçante, um reles colar de contas em volta do pescoço, uma guirlanda de flores do campo em volta dos cabelos e nenhum outro adereço além de um suave perfume alfazema que envolveu todo recinto, dando ao ar um inesperado frescor de novidade.

Tudo pensado na medida exata para disparar o gatilho da bisbilhotice, do mexerico e falatório. Viram a feiticeira entrar ali na chefatura de polícia?  

Veio toda inteira pronta para o fascínio e a sedução. Aquilo também já era uma imensa perversão, onde já se viu tamanha perdição?

O evento provocou um enorme burburinho, pondo toda cidade num enorme alvoroço. Mesmo sem que ninguém soubesse o que se conversou ali na salinha onde se aglomeraram o prefeito, o delegado e o vigário – completamente inquisidores em volta da feiticeira, seus encantos e mandigas.

O interrogatório durou toda manhã e a tarde inteira, varando a noite e a madrugada, pondo muita caraminhola e invencionice na imaginação das gentes.

Da conferência, regada a muitos comes e bebes, o pouco que se sabe é que a bruxa foi trancafiada no xadrez. Numa cela arquitetada para conter o poder de seus feitiços.

Era preciso pôr um fim aos seus abusos e desmandos.

Onde já se viu admitir que não tinha nada a ver com o acontecido, que tudo se dava por obra e graça de algum fenômeno climático ainda não esclarecido?

Aí estava a prova de que boas intenções a sujeita não tinha.

Sua cabeça era uma usina de maus agouros prontos para encher toda a cidade, vizinhança e arredores, com os ares de sua desgraça. Aquilo era uma víbora, uma megera. Jararaca em pele de lagarta.

Que tirassem a esperança do banho-maria, daquele casulo não sairia borboleta.

Por conta dessa única e inegável verdade, não demorava e o oco de sua cela cobriria de vazios os fios de suas esperanças, minando sua fé e confiança.

Lentamente, ela perderia o vigor de sua força e exuberância.

Mesmo sendo conhecida e indiscutível oficina do diabo, cabeça vazia não trabalha sem as devidas e necessárias ferramentas.

É preciso liberdade para se dar sentido à malquerença.

Assim sendo, ou não sendo, logo começou a circular no povoado uma inédita e inesperada nova idade. Sem que ninguém se desse conta, a feiticeira voltou ser novamente a novidade.

Toda gente tinha fresquinho algum fuxico para acrescentar ao disse me disse que fazia dela a razão do mexerico.

Naquele imenso bordado, nenhuma linha dava ponto sem nó.

Confinada em seu alvéolo, a feiticeira exibia suas asas de libélula – transformando o trivial em extraordinário.

Nas paredes brancas do cubículo onde a confinaram, começou a pintar uma enorme embarcação.

Dias a fio, ficou ali, confinada e entregue à sua obsessão.

Aquele barco era um interminável túnel, passagem camuflada para a libertação de sua mente. Tecendo seu fio de Ariadne, dava um sentido àquele seu confinamento.  

Sob o olhar atento do carcereiro, que navegava naquele mar de riscos, linhas e traços – o veleiro foi ganhando forma.

E a feiticeira ali, destilando o mel de seus embruxos – senhor meu guardião, o que falta neste barco?

Sem mais nada o que fazer, além de vigiar a vida alheia, o homem resolveu ajudar. Devagarinho foi aparando quinas e arestas – até o barco surgir exuberante na brancura fria da parede.

Agora, não falta nem um tiquinho de nada para que isso seja um barco, senhora dona moça.

Então, vá até ali no ribeirão – buscar um poucachinho de água para que ele possa navegar.

Imerso na imensidão daquele mar de impossibilidades, o homem mergulhou por inteiro naquela fantasia e lá se foi buscar no ribeirão o fiozinho de realidade que faltava àquele faz-de-conta.

A aparição grudada ali na parede era o pedaço inteiro de um entressonho que jamais tinha imaginado algum dia viver.

Mais do que um capricho da feiticeira, aquele barco era a invenção de um desatino – impossível de se fabricar para além da imaginação. Puro delírio e alucinação.

Apesar de tudo isso e mais um pouco, ali estava ele bebendo o bem bom de toda aquela maluqueira. Em fiel desacordo com suas crenças, juízos e convicções.  

Barbaridade boa é mesmo assim, deixa a gente perdidinho entre a loucura e contrassenso. Vai ver que foi só pra isso que viveu até aquele exato instante: ver navegar no mar da fantasia um barco que nem sequer existia.

A manhã e a tarde quase inteira, ficou ali às voltas com a transposição do ribeirão das lonjuras onde se achava até o aconchego do lugarinho onde se encontrava a feiticeira.

Sem a menor ideia de como conduzir o ribeirão, toda sua fúria e correnteza, até o confinamento da masmorra, o pobre homem perambulou de botequim em botequim turbinando de canjebrina as ideias.

Assim que retornou ao xadrez, acendeu uma vela para o seu Santo Padroeiro, senhor das causas impossíveis, e foi comunicar à feiticeira os insucessos de missão.

Mas para seu assombro e sobressalto o barco já não estava mais ali, estampado na parede. Em seu lugar, apenas a brancura translúcida e intransponível do vazio.

Desencontrado entre o susto e a comoção, levou ainda um tempo para perceber que a cela estava completamente vazia. Num impasse de mágica, a moradora tinha simplesmente desaparecido.

De sua inexistência ficou apenas um suave perfume flor-de-laranjeira, que irrigou o ar durante uma semana quase inteira.

Avram Ascot

220522

Doidice


o-aluado

O aluado, Avram Ascot. 

Todo bairro, toda vila, toda aldeia tem seu doido. Uns mansos, outros brabos. Doidos de pedra, penduricalhos, badulaques e balangandãs. Todos muito bem equilibrados na insensatez de suas maluquices e doideiras.

Mas sempre gostei mesmo, de verdade, foi de doido de pedra.

Quando era criança, sempre que ouvia algum adulto dizer que um sujeito era “doido de pedra”, a imaginação endoidecia e eu via, com todas as cores e contornos, uma enorme estátua do Barrão, toda empedrada e espetaculosa, bem ali na praça principal da cidade.

O Barrão era doido oficial de uma das ruas de minha infância. Vestia uma sobreposição multicolorida de roupas, badulaques e balangandãs e nós, inocentes e cruéis criancinhas, adorávamos correr atrás dele cantando “em Itambé só tem muié, é… é… é…”.

Uma maluquice sem sentido que fazia de nossas tardes uma verdadeira loucura. Nunca descobrimos qual a origem dessa provocação, mas era muito doido ver o Barrão endoidar.

Foi assim por um bom tempo, até um dia ele aparecer bem vestido, penteado, barbeado e sorridente.  A filha tinha tirado ele da rua. Colocado em uma clínica.

Até uma aposentadoria arrumaram pra mim, lá. Agora, já não sou mais lelé da cuca, sabe? até pensando arrumar namorada.

O monumento de minha infância desmoronou. Então, o Barrão não é mais doido, maluco, zureta!? 

Não.

Mas apenas até dois meses depois, quando livre de amarras e tratamentos, reapareceu, Apoteótico.  Todo recoberto de bandeirolas e adereços. Varrendo o chão com seus farrapos: “em Itambé só tem muié, é… é… é…”.

Essa vida da gente é mesmo uma doidice, não é?

Avram Ascot

ACF100821

A FUGA DO SANTO


Dia de São João – Militão dos Santos

Santo Em pé. Sozinho. Largado. Ali no abandono do altar. O santo queria mesmo era sentar. Tirar aquela auréola da cabeça. A alpercata lhe apertando o joanete dava uma comichão danada na cachola. Vontade doida de rasgar a túnica e sentar o cajado nas fuças do primeiro fiel que aparecesse por ali, desfiando em mil novenas um rosário de muitas ladainhas.

Não suportava mais aquele andor. A cara descarada do coroinha fazendo pouco do ora pro nobis das beatas. A procissão que perambulava sua imagem em romaria. A goteira, ali do lado do ostensório, que lhe encharcava a cara de respingos e diziam que eram lágrimas que ele vertia.

A dinheirama que os fiéis deixavam ali aos pés de sua imagem e alimentava, não os pobres, mas as bebedeiras do vigário e as visitas do sacristão à zona da cidade.

O pior de tudo era a cara de pouco caso que os descrentes e hereges faziam diante de sua sacrossanta figura. Aquilo lhe deixava prostituto de vivência. Não fosse um santo, mandava todos à puta que os pariu.

Mas por dever de beatitude e santidade nunca deixou de ouvir de ninguém as queixas. Apenas, uma vez ou outra, esquecia os pedidos ali mesmo no altar.

Qualquer outro que atendesse aquela graça que sua graça era Dito, não Expedito.

Ninguém nunca lhe perguntou mesmo se ele queria ser santo. O que queria mesmo era ser mendigo, desvalido, vagamundo.

Mas daí, acharam que isso tudo era virtude e resolveram sua penúria beatificar. E agora, estava ele ali: sozinho e solitário no abandono do altar.

Se lhe tivessem avisado que ser santo era assim, teria fugido com a vizinha e evitado esse marasmo de hoje em dia.

E olhe que a guria até que era bonitinha. Mas em vez de fornicar, lá foi ele entrar naquela abadia. Maldito dia.

Antes, tivesse se envolvido com a Anamaria.

Hoje, seria apenas vaga lembrança na memória de outros dias. Mal entendido esquecido nas entrelinhas de anedotas, causos e estórias.

Em vez disso, lá foi ele inocente, puro e besta se entregar a embriaguez da abstinência.  A castidade fazendo com o celibato orgia.

O único porre que tomou na vida foi de padre nosso e avemaria. Pra quê? Pra virar aquela estatueta de pedra sabão ali imóvel feito fosse um monge meditando?

Soubesse que seria assim, nunca que teria sido tão certinho. Mais que isso, teria posto tanto atalho em seu caminho que até hoje estaria transviado e perdidinho.

Deixa um dia o cura deixar a porta da capela aberta pra ver se não me pelo desse altar. Saio ali pelas beiradas daquela esquina e pico a mula no lombo da primeira ventania que soprar o pó da estrada pra bem longe dessa vizinhança.

Por enquanto, vou aproveitar que não tem ninguém aqui e vou ali molhar o beiço de água benta.

Se o vigário tivesse aqui, convidava ele pruma branquinha ali no botequim da esquina.

Esse cheiro de caninha deixa a gente tonto de vontades.

Seu sacristão, tem um cigarro aí?

Hummmm, filtro vermelho. Este é dos bons?

Bora uma mão de pôquer valendo aquela vaga que sua sobrinha quer no vestibular?

Avram Ascot

ACF/200321

A RUINDADE NOSSA DE CADA DIA


Anúbis-O deus chacal

Anúbis – o deus chacal, Avram Ascot

De repente, em uma conversa com um interlocutor eventual, ouço na lata a desconcertante máxima: “O homem é ruim por natureza”. Repleta de reducionismos e preconceitos a frase é campeã de audiência no imaginário do senso comum desde a Antiguidade.
Lá pelos idos do século XVIII, Jean-Jacques Rousseau apresentou uma contrafação desse singelo aforismo, afirmando que “o ser humano nasce bom, e a sociedade o corrompe”. A afirmação caiu como uma bomba no colo da civilização judaico-cristã, que se livrava por um impasse de mágica da mácula do pecado original.
O problema com ambas as afirmações é que elas procuram persuadir pela emoção e não pela razão. São simples opiniões e não argumentos baseados na objetividade dos fatos.
Bem e mal são construções sociais. Nenhum de nós nasce bom ou ruim. Nascemos humanos. O construto social de bem e de mal vai ser elaborado a partir da sociedade em que nos inserimos.
Na visão da Antiguidade, está lá em textos sagrados das mais diversas e variadas religiões, um deus beligerante, misógino e sanguinário era sinônimo de amor e bondade.
Percebe-se, então, que noção de bem e de mal muda de sociedade para sociedade e de época para época.  Nesse sentido, Nietzsche é bastante preciso, quando afirma que “as verdades são metáforas, que se tornaram gastas ou sem força”.
Em outras palavras, toda verdade é social e historicamente construída. Portanto, a afirmação de que somos maus por natureza é extremamente simplificadora e reducionista.
É o tipo de frase que faz um apelo direto à vontade e aos sentimentos do interlocutor. Ganha pela emoção e não pela razão. Somos todos maus e perversos e precisamos nos livrar dessa mácula.
Isso desestrutura completamente aqueles que desconhecem que bem e mal não são produtos da natureza, mas construções sociais criadas a partir de uma determinada visão e interpretação de mundo.
Mais ainda, abre-se um espaço descomunal para que os oportunistas de plantão vendam no balcão das ideias prontas a convicção barata de que precisamos todos de um redentor.
O mercado é inundado por um sem número de seitas, coaches e arautos da autoajuda vendendo a redenção em módicas e suaves prestações. E todos vão dormir em paz, convictos de seu crescimento e desenvolvimento pessoal.
O problema com esse tipo de visão reducionista da realidade é que não leva em conta o quanto a elaboração de um construto social é complexa.
A visão de mundo de cada um de nós é construída a partir das influências que recebemos da sociedade à qual pertencemos. E para desnaturalizar aquilo que é uma construção social é preciso ir além do óbvio.
Repetir, irrefletidamente, que “O homem é ruim por natureza” não contribui em nada para a resolução de nossos problemas sociais, políticos ou econômicos. Apenas, nos dá uma falsa sensação de tranquilidade.
Se somos todos maus por natureza, o quê fazer, não é mesmo?
Para compreender a dinâmica social que leva à exclusão, à pobreza e à má distribuição de renda é preciso ir um pouquinho além das frases feitas e dos clichês.
Compreender os fenômenos sociais que influenciam na visão de mundo de cada sociedade, exige um esforço de reflexão que nos leve a pensar “fora da caixinha”. Afinal, como diz Merleau-Ponty, “A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”.
Munidos das ferramentas certas podemos mudar não apenas a nossa concepção da realidade, mas também perceber o nosso lugar no mundo. Despertar para o fato de que não somos nem bons nem maus. Somos apenas humanos. Seres sociais, que constroem seu imaginário a partir de uma dada visão de mundo, social e historicamente situada.
A ideia do “homem ruim por natureza” é produto de uma visão determinista e simplificadora da realidade, há muito abandonada por quem busca entender criticamente as múltiplas possibilidades de organização e reorganização de nossa sociedade.
Avram Ascot
ACF/1602/21
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APARIÇÃO


MATITEPERÊ-UM-SACI-NA-ALMA

Matitaperê, um saci na alma. Avram Ascot
Muita gente vai dizer que perdi o juízo, o bom senso e a razão. Mas tenho aqui comigo inédita e extraordinária uma desabusada confissão. Dessas bem impublicáveis: toda despudorada e sem-vergonha.
Periga até que digam que sou um desmiolado bem alucinado e delirante. Mas desatinos e desacordos à parte, a verdade é que…  Eu acredito em assombração.
E em Saci. Mais ainda, eu vejo Saci. Um deles até já me livrou de uma assombração.
Muita gente deve estar achando tudo isso uma imensa maluqueira repleta de desacordos e contrassensos. Uma barbaridade bem tresloucada e delirante.
Mas quem tá rindo é quem nunca andou pelo mato adentro, cruzando sozinho muita campina e descampado, os olhos dos bichos espreitando os passos. A voz do vento soprando bestagem na imaginação para além de onde mora a fantasia. Calafrios e tremeliques balançando o corpo todo inteiro feito a gente fosse um bambual de vara-verde.
O amigo por acaso já topou um amontoado de orelha-de-pau no decampado duma clareira, achatada entre o matagal e uma colina, a cara lavada do fungo ali lhe espiando com ares inocentes de bolor e levedura?
Tudo armadilha. Disfarce e impostura. Cada bolorzinho daquele é um embrião de assombração.  A sementinha de um susto guardada no ventre da madeira. 
Aquilo ali é um cemitério inteiro de Saci.  Repleto de trique, saçurá e cecerê. Ou o amigo não sabe que o arteiro se fina em orelha-de-pau?
Danado esse matitaperê.
Mas arrepio mesmo, desses de provocar mil tremores e mais uma porção de estremecimentos é topar com um bambuzal no ermo do capinzal deserto.
É ali que entre chiados e rangidos nasce o Saci. Zunidos e murmúrios parindo sustos na imaginação da gente.
O vivente fica ali, todo bambo e esbodegado.  
Dentes e joelhos viram uma tremedeira só. O tique-taque do coração pura pancadaria e batedeira.
No meio do capinzal, cada gomo de bambu é o embrião de um redemoinho que guarda em seu rebojo a semente dum saci.
Basta soprar um ventinho, e pronto.  Do meio do bambual, bem no olho do redemoinho, brota um saci. O coral da carapuça envenenando a imaginação da gente.
Só quem já caminhou no desabrigo de uma campina, o vento zumbindo no vazio do descampado, sabe o quanto tem de aparição no rebolir do capinzal.
Basta o mato bulir pra imaginação se agigantar.
E a gente fica ali, alma de outro mundo, assombração em desamparo.  Visagem em abandono.
Alucinação e faz-de-conta.
Avram Ascot
ACF/280620

O GUIZO DA CASCAVEL


cobras-e-lagartos

Cobras & lagartos – Avram Ascot
Desfazer o normal há de ser uma norma.
Manoel de Barros.
Lá no meio do descampado do sertão, levavam um dedim de prosa Dona Cobra e Compadre Calango.
Dona Cobra era uma cascavel sanguinolenta, dessas de guizo sibilante e chocalho barulhento. O triangulo da cabeça, uma sinfonia de maus presságios. Indícios de mau agouro.
Aquela cara era o espanto no medo de muita gente.
Compadre Calango era um TeídeoAmeiva leso e desimportante. Lagartinho verde, sem grandes ambições. Quarenta e cinco centímetros de pura ligeireza e agitação. Mas pacato e imperturbável como um monge.
Aquela estampa não figurava no repertório dos medos de ninguém.
Mas dessa oposição nasceu uma amizade, que era em tudo um contraste de avessos. De um lado toda aquela ferocidade e danação. Pura força, exuberância e irritação. Do outro, muita tranquilidade, equilíbrio e mansidão. 
A fera e o feio era uma dupla de arrepiar cabelo em pé.
Aquilo ali em boa coisa não ia dá. Ninguém que não cria naquela amizade de afetos tão distintos.
Bem que um dia a camaradagem de toda aquela convivência e compadrio podia dar de cara com a parede. Burros e vacas se afogando em brejos e águas profundas.
Pior ainda…
Já imaginou, se no lapso dum descuido esses dois inventam, por desleixo da paixão, qualquer passatempo libidinoso que lhes suba a cabeça e às vontades?
Boa coisa não ia dá um cruzamento de espécies tão distintas…
Mas por enquanto, eles ficam apenas ali jogando conversa fora. Cavaqueando um punhadinho de prosa e ora mais vejam.
 – Comadre Dona Cascavel me diz que o que mata o vivente não é o seu veneno, então?
Nadica de nada, compadre meu Calango.
– E por favor de obséquio, a comadre poderia fazer a fineza de me dizer o que mata, então.
Apois não é o susto, compadre meu Calango.
– Ah, mas essa eu ainda estou pra ver, comadre Dona Cascavel.
– Pois então, assunte e veja, compadre meu Calango.
Digue, comadre Dona Cascavel.
– Tá vendo aquele vivente que ali vem vindo, pé descalço no chão e cabeça nas nuvens, ao vento.
Apois não vejo, transparente como água clara.
Entonce, o compadre vá lá e lhe mordisque o tornozelo, enquanto eu fico aqui, nas encolhas, escondida nessa moita.
– Depois…
– O compadre se camufle aqui nas encolhas que eu apareço desencoberta de meus disfarces.
Dito isso, ficou o feito pelo desfeito.
Cascavel lá nas encolhas e calango no descampado do caminho sem rumo.
O dito distraído viajante, assim que se viu tão visivelmente espicaçado, procurou no rumo de seu desconcerto a origem da picada.
E de repente lá estava ela, Dona Cascavel sanguinolenta, dublê de calango e campeã de blefe e pôquer ao alcance da pontada.
Empeçonhado pela visão do pânico estendida ali ao alcance de um bote, o sujeito teve um surto e caiu mortinho de medo e susto.
Lá no abrigo das encolhas, o coração do Calango batia no ritmo descompassado da paixão.
Agora, ele também era do clube da peçonha.
Avram Ascot
ACF/230520

TRAGUEADO


Epaminondas

Epaminondas, o pantaneiro da cidade, Avram Ascot. 

Abstinência é osso. Osso duro de roer e de quebrar. O tutano fica ali no miolo do desejo,  inalcançável. Complicado. Difícil de alcançar. E o desejante, desinfeliz, revira os olhos: as vontades todas por um triz. Desatino pedindo enxurrada – gotinha d’água que lhe transborde a vida inteira em chuvarada constante e ininterrupta.

Só quem já se viu privado do vício e hábito seu de cada dia sabe o quanto dói uma abstinência. Dor desembestada que analgésico nenhum alcança amenizar. É uma pontada imensa bem lá no meio da vontade. As lonjuras do desejo ali pertinho. No entanto, inatingível.

Álcool e ópio cada um tem o seu, e cada qual sabe o quanto custa deixar o danadinho ali largado no abandono da miséria – a mão em cuia implorando a esmola de um pernoite uma pousada. Sem hospedeiro que lhe dê amparo e abrigo nenhum delito sobrevive.

E para piorar a crueldade dessa triste constatação, vem agora essa uma pandemia. Vírus vindo dos cafundós de nossos medos mais assustadores para nos obrigar todos à abstinência.

Um dia de cada vez, o isolamento vai nos ensinando neuroses e obscenidades impublicáveis. Gulas e taras impensáveis em tempos de livre circulação e embriaguez.

Cobras e lagartos saltam da floresta úmida de nossos medos. Selva tropicaliente de muitas febres e delírios.

Uma simples idinha ao supermercado se transforma num ritual. Cerimonial de muitos ritos e passagens.

De repente, todo mundo começa a usar “roupa de missa” no trivial do dia a dia: essa aqui é só pra sair. Depois, quando voltar tem que ficar lá fora exilada no desterro da área de serviço ou do quintal.

E as máscaras não podem cair, ou ficamos todos ali dando a cara à tapa. A mão do vírus nos acariciando o rosto.

Beijos e abraços estão proibidos e proscritos. Transar então nem pensar, ou o vírus penetra ali na festa e tudo vira infecção.

Aquela cervejinha no boteco, esquece.

Por essa e outras é que não abro mão do Epaminondas, meu jacaré de estimação, especialista em Delirium tremens e escaladas verticais.

Roqueiro dos bons, o pervertido já amanhece o dia cantarolando Pink Floyd – you’re just another brick in the wall.

Pior é que não tira o olho da Dulcinaura, a lagartixa ali do paredão do lado sinistro da força.

Santo Zeus Capitolino, o Epaminondas veve me apoquentando o sossego. Não dá uma trégua.

Desce daí, Epaminondas. Vai quebrar o pescoço, menino!

Avram Ascot

UM SILÊNCIO NA MOLDURA


JARDIM-DO-GUERREIRO-ZEN

Jardim do Guerreiro Zen – Avram Ascot
O menino acordou com uma ideia balançando na cachola. E como chacoalhava! Guizo de cascavel enfeitiçando o ar. Sua peçonha punha veneno na imaginação. E ficava ali espreitando a presa – toda sinuosa e insinuante. Sem hesitar um só instante. O menino era assim, muito insistente…
Queria fotografar o silêncio. E não precisava nem ser um silêncio inteiro, uma restiazinha que fosse já o deixava satisfeito. Um ainda filhotinho já valia a curiosidade de ver a cara risonha da criaturinha ali exposta na moldura sem fim do porta-retratos que trazia impresso nas lonjuras da imaginação.
Já pensou, domar um bicho desses, aprisionando seu rastro bem ali onde todos pudessem ver?!
Isso sim, seria uma proeza e tanto. Uma aventura repleta de muita peripécia e heroísmo. Porque silêncio não é bicho que se mostra por aí assim, sem mais nem menos.
Há que se montar muita armadilha e arapuca, para que o danado se mostre em meio ao burburinho de tantos tagarelas – que insistem em criar ruídos em cativeiro.
Barulho bom vive é solto no descampado das várzeas e emaranhado das matas, compondo a sinfonia do sem fim por esse sertão em fora. E é ali no meio do som, nos vãos e desvãos desse barulho bom, que o silêncio todo prosa se esconde quietinho, lá num cantinho todo inteiro dele.
O menino vivia num minguado sitiozinho lá nas rabeiras de um povoadozinho qualquer. Mas isso só durante as férias. Trinta dias inteiros de muita traquinagem e alforria. O resto do ano era todo gasto na névoa cinzenta da cidade grande, lugar pouco adequado para se tirar a imaginação da coleira e deixar a intuição seguir o faro do instinto, pegando no ar o rastro de uma constelação de aromas.
O menino tinha para cada plano o seu esboço. E trazia todos bem guardados ao alcance das mãos, ali nos bolsos.
Vô você me empresta sua câmera fotográfica, aquela uma de filme de película?
Menino, e onde é que você vai arrumar filme para ela? Essas coisas agora são caríssimas. O menino tinha dessas manias. Também, gostava de discos de vinil. E embora tivesse apenas nove anos, sua imaginação viajava sempre a uma ilha chamada nostalgia. E quanto o enfeitiçava esta magia…
O menino era todo ele liberdade e alforria. Que ideia aquela do avô, que usasse a câmera digital do pai! Se quebrasse, levava uma baita duma surra. Fotografar com celular, também, nem pensar. Silêncio de verdade não tá nem aí pra esses ruídos…
Dois anos inteiros o menino ficou ali, incubando o embrião de sua proeza. Sem mais avisos, o pai resolvera que as férias seriam agora no Nordeste. Mais de um ano inteiro sem ir ao sítio, foi uma eternidade em que seu projeto dormiu no descampado e ao relento. Ao sabor de vento e chuva, ao deus-dará. Vai que não dá.
A adolescência ali se avizinhando fazia a cara risonha do silêncio se esquivar. Logo, já não seria visível em qualquer lugar.
Silêncio, isso é coisa que se vá lá fotografar?!
Cá e acolá, já começavam dele a desconfiar. Pouca gente para ajudar, um tantão assim pra sacanear. A fama de maluquinho que nem fofoca a se espalhar.
Fotografar o silêncio!?
Até que um dia numa aula de História uma ideia veio lhe salvar.
Óbvio, a pro de Ciências teve que ajudar. Com aqueles olhões irrequietos, ela era mesmo de se admirar. Luz para dar e transbordar…
Diz que sem mais nem porquê o menino descobriu, numa aula sobre a origem da fotografia, que com uma caixa de sapato, lupa, tesoura, cola, papel vegetal e uma cartolina preta – podia fazer uma máquina fotográfica.
Eureca. Agora sim, ele seria capaz de apanhar em qualquer raiozinho de luz a cara arisca do silêncio. Periga até mesmo que algum fantasma lhe acenasse com cara bem-criada e amigável.
Quando a traquitana ficou pronta, com a ajuda da pro de Arte e a de Ciências, ele foi todo prosa tirar onda de cientista – contar vantagem pra galera.
Naquele seu aniversário, nenhum outro presente ele quis além de um pacotinho de papel fotográfico e um tiquinho de tudo mais que a gente precisa para tirar do escuro lá da câmera um retrato. Pode ser, né pai?
No sítio, foi a primeira coisa que mostrou para o avô todo sorridente – olha aqui a minha máquina que eu mesmo fiz, vôzão. Funciona e muito bem, tá sabendo?!
O avô sabia, por isso nem estranhou quando o menino começou a sumir o dia inteiro perdido nas lonjuras do bater perna por aí. Um sorriso enorme estampado na esperança de esbarrar com um silenciozinho qualquer, que distraído se deixasse apanhar.
Feito fosse arapuca, montava sua engenhoca cada dia em um lugar. Ainda bem que o vô me fez esse tripé aqui, eu é que não aguentava ficar o dia inteiro segurando esse troço aqui nos ombros.
Mas o silêncio nunca que se deixava fotografar, sempre escondido para além de onde a vista pode alcançar: todo tímido, retraído e assustadiço – até dos ouvidos ele costumava se esquivar.
Dias a fio no fio daquela conversa afiada que o silêncio insistia em desfiar até que um dia, aconteceu.
Na margem do ribeirão dependurado no olho de um redemoinho o silêncio balançava, tirando a sesta numa rede. O menino apontou a câmera, bem ali na direção de onde vinha o vento, e pimba. Lá estava o bicho fechadinho na armadilha. O espanto desenhado na cara lambuzada de surpresa. O assombro lhe escorrendo pelas ventas. Ora, mas veja: Como é quê!?
Trancado no escuro do quartinho de ferramentas do avô, o menino era todo euforia – quando viu surgir na moldura sem margem do papel, num gesto leve e esvoaçante, a cara alegre do silêncio.
No vazio entre as duas margens do ribeirão, para além de onde o desenho das árvores alcança – nada em volta. Apenas, o silêncio dormindo a sesta num qualquer fim de tarde do mês de junho – o vento soprando o primeiro frio do ano.
Avram Ascot
ACF/170420