JUST STANDING IN A DOORWAY


Galgos

 

 

Watching girls go passing by
It ain’t the latest thing
I’m just standing in a doorway
I’m just trying to make some sense
 Out of these girls go passing by
The tales they tell of men
 Jagger/K. Richards

 

O homem veio vindo, olhos vidrados na vitrine sem vidro do decote da moça. O sorriso destilando a embriaguez sem álcool da libido incontida. Na cara deslavada, o ar de tranquilidade era o esboço de desejos impublicáveis. Aquele sossego era pura euforia.
Distraída, a moça só tinha olhos para a elegância sutil de seus pets. O irrequieto casal de galgos que levava ali pela coleira. Os cães eram puro alvoroço e alegria. Leves e esguios eram a personificação da elegância desfeita em harmonia. Puro equilíbrio e simetria.
Envolvido na distração de seus impulsos, o homem foi-se aproximando da moça – olhos fixos na razão de seu deleite. A excitação fazendo festa em seu alvoroço. O bom humor abrindo sorrisos em seu entusiasmo.
E assim que se viram frente a frente, a distraída e o desatento, ele lentamente se abaixou, acariciou os cães com desinteresse e inquietação. E, no frenesi da embriaguez, olhos postos na vitrine sem vidro de seus delírios e transparências, sussurrou – eles são lindos!
Desatenta e displicente, com estudada indiferença, ela responde, enquanto acaricia… Os cães – eles também gostaram de você.
Sem desconcerto que lhe compensasse a decepção, com incontida malícia e agilidade, ele acrescenta – eu me referia aos seus… Olhos.

 

Avram Ascot
              ACF/020817   
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Presidente Johnny Bravo


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Johnny Bravo é um personagem de desenho animado que “pensa” com os músculos. Obtuso e imaturo, tem atitudes e comportamentos típicos de um pré-adolescente mimado. Seu vocabulário é tão amplo quanto suas ambições: encontrar uma namorada.
Criado como uma sátira do super-herói ensimesmado e inverossímil, Bravo é a caricatura de uma caricatura.
Do ponto de vista psicopedagógico cumpre a função de mostrar às crianças, de forma bem humorada e lúdica, o imenso abismo que há entre ficção e realidade.  Se atinge ou não o objetivo já são outros quinhentos, como diriam as vovozinhas de antanho.
Bravo, assim como Maxwell Smart, o “antigo” Agente 86, é uma sátira bem-humorada do super-herói invencível. De maneira despretensiosa e pouco ortodoxa discute a ideia do além-homem de Nietzsche.
Até aí, tudo bem. É a indústria cultural, sempre padronizadora e repetitiva, rindo de si mesma e rir de si mesmo é sempre saudável. Ajuda a desenvolver a autocrítica. Pessoas inteligentes e bem resolvidas fazem isso o tempo todo. Na ficção e fora dela.
Para os cinéfilos de carteirinha de todo o planeta é uma delícia ver como o excelente Jean-Paul Belmondo se diverte interpretando o impagável Bob Saint Clair, no extraordinário longa-metragem Le magnifique, de Philippe de Broca.
Mas tanto a ficção quanto a realidade têm seus limites e fronteiras e para além deles viver é quase sempre um perigo. Por isso, quando o presidente da maior nação da América Latina se compara ao caricato Bravo, completando a frase com um sonoro “porra” a ficção ultrapassa os limites da verossimilhança e a realidade vira um imenso conto da carochinha, repleto de burros “falantes” e asnos “pensantes”.
Que o atual presidente é um grande canastrão, todos sabem. O ar meio apalermado e olhar perdido que exibe nos compromissos e cerimonias oficiais revelam não apenas o seu despreparo para o exercício da presidência, mas também sua completa falta de inteligência e sua total inabilidade como articulador político.
Vá lá, nem todos nascem inteligentes e não se pode exigir de ninguém aquilo que não tem para dar. Mas será que entre seus assessores não existe um caboclinho sequer com um mínimo de sensatez para dizer que qualquer presidente latino-americano que queira ser lembrado como “mito” deve se comparar a gente como Simón Bolívar, José Artigas, San Martin, Bernardo O’Higgins e nunca a Johnny Bravo?
Uma pena que a ambição máxima do presidente da oitava economia do mundo seja transformar-se num personagem de Hanna-Barbera.
O incidente lembra uma máxima do saudoso escritor argentino Jorge Luis Borges sobre o General Leopoldo Gualtieri, ditador e presidente da Argentina entre 1981 e 1982, “A ambição de Gualtieri era ser Perón. Nunca conheci ambição mais modesta”.
Se a ambição de Gualtieri era modesta, imagine a do JB dos trópicos.

Avram Ascot

ACF/070819

CÚMPLICES


Après le café

Après le café – Aquarela – Avram Ascot
Num breve esboço – o sorriso.
Olhos nos olhos – sem medo: o beijo.
Depois, leve, lento, suave: o abraço…
Sem muito esforço, carícias.
Como velhos amigos, segredos.
Muito em breve – sem rodeios, em meio à multidão – passo a passo: a música, a dança, o balé.
Sem esquivas: a cama, os lençóis…
Toques, marcas, rastos – vestígios no corpo…
Tremor, arrepios – o momento, o instante:
Outras delícias…
No ar muitos suspiros e pistas.
Sempre a primeira vez, nunca a última chance.
O aqui e o agora – o suor e o cansaço:
Sempre bem-vindos.
Riso no aconchego do colo acolhido.
A dama da noite em silêncio: sua força e vigor – sal e salsa em flor…
Seu esconderijo, seu nome – secreto desejo.
Debaixo de sete chaves (bem quietinho) o segredo: seus mimos, seus dengos.
Seu perfume, estrela cadente, nalgum cantinho escondido da mente.
Zoé Repentista
ACF0150719

História Banal


Ronda de Samba

Roda de Samba – Aquarela  – Avram Ascot

O homem na cela, a mulher no portão.

Em meio às desavenças, rixas…

Mau-olhado…

Quebranto. Malquerença.

Discussão…

Na briga de trânsito: o tráfego.

O gesto. O aceno.

Insinuação.

Tráfico?

Faz-de-conta…

Movimento, agito.

Alucinação…

A arma em punho, o corpo no chão.

Lágrimas, gritos, balbúrdia, confusão.

O reverso do avesso ao alcance da mão.

A fuga. O cerco.

A perseguição…

Em alta voltagem: a negociação.

As algemas.

O pulso, a prisão.

O início da cena ali do portão:

A cela. A lágrima.

O sim e o não…

Zoé Repentista
ACF0080719

ALERTA


florescer
Madrugada. Desperto. Novamente no peito, este aperto. Na semipenumbra do que ainda resta da noite, a luz duela com as sombras. Angústia é o nome deste meu desencosto.
É a terceira vez que acordo desde que me deitei. Prego os olhos, não durmo. Ressono, apenas. Um semissono sem sonhos andando em círculos em volta de mim.
Lá fora, ainda chove. Cá dentro, o balde transborda. Uma lâmina fina de água forma no assoalho um tapete – o chão é um lago sem peixes.
O frio ainda faz com o vento firulas, soprando por entre as frestas a friagem. O casebre de madeira é agora uma imensa geladeira – caixote vazio balançando na borda da ribanceira.
Mais uma vez, acendo um cigarro. Último do maço. Fósforo, também já não tenho. O lume fraco que abrigo entre os dedos é o último da caixa.
Antes que a chama se apague, acendo o pavio da lamparina. Fustigo o fogão, acendo o braseiro. Tudo puro instinto, não minto.
Esse semissono me deixa dopado.
Subitamente aquecida, a choupana ganha ares de estufa. Do meu cérebro brotam sementes de uma qualquer erva alucinógena.
Essas luzinhas no teto são restos de estrelas cadentes – detritos de uma galáxia distante. 
O som do silêncio faz cócegas no ouvido. Do outro lado da noite, os cães ladram a distância.
Pouco a pouco sou vencido, sem esforço.
A madrugada ainda insiste em ficar mais um pouco.
Sem saída, fera em fuga, adormeço.
Lá longe, andam campeando meu rastro.

FUGA


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Andante ma non troppo
Acordo. No meio da noite, tudo em volta é escuro. O mundo inteiro, silêncio. A manhã anda distante, perambulando no outro lado do mundo. O vento lá fora não me deixa mentir, a escuridão é um monstro – disforme, distante, indiferente. No topo do mundo, tudo é vazio. Cá embaixo, faz frio.  
Nada acontece no vazio da cabana semideserta.
Sozinho, sinto o vento entrando pelo vão entre as frestas, a madeira estalando e rangendo.
No telhado, tamborila o som grosso e torrencial da chuva que começa a cair, gota por gota, no vão da goteira. Logo, o balde não dá conta de tanto aguaceiro.
Levanto. No escuro mesmo, acendo um cigarro. O lume da brasa põe fogo na noite. Vagalumes acordam do sono, o casebre se enche de luz – alfa do centauro em anúncio néon.
Lá fora, os olhos dos bichos alumiam a noite – faróis guiando navios na orla do nada.
Volto a deitar. Trago, solto a fumaça. Da névoa emergem fantasmas. A cara mal-assombrada de meus medos cria coragem e sai do esconderijo das máscaras.  
Puxo o cobertor. O calor sob as fibras da lã dá consolo à minha insegurança. Ainda há pouco, tudo era tão frio. Só dentro de mim permanece a geleira. Daí pra frente, tudo é incêndio e fogueira.
Lá longe no teto, uma teia de aranha se esconde no vão entre as sombras. Fecho, abro os olhos. Não vejo nada. Nenhuma luz me chega às retinas.
Toda noite é essa rotina. A insônia adormece meu sono, o silêncio desperta do exílio toda a insegurança dessa minha existência.
Resisto. Desisto. Adormeço. Amanhã, novamente, o dia é de fuga. A caçada por onde termina, principia.
A vida é sempre isso, o caminho por aonde nunca se foi.
Avram Ascot

 

MESTRES CERVEJEIROS


Não existe espaço mais democrático que uma boa mesa de botequim. No desabrigo de suas redondezas, todos são bem vindos. Boteco que se preze é casa de gregos e baianos.  Oásis de biriteiros e boêmios. Bem-estar de comedores e cornudos. Reduto de subversivos e reaças. Retiro de putas e donzelas.  Refúgio de mãe-de-família e mulher-dama.
No desabrigo dum botequim, todos estão expostos ao desamparo. No frágil equilíbrio de uma mesa bar, toda tolerância é impaciente. Basta o sujeito achincalhar o time do outro e, pronto, danou-se. Lá se foi pelo ralo toda fineza e cortesia.
Mas para além de toda essa gastura, também se vê muita gentileza e educação – que nem só de bate-boca e discussão vive o boteco. Mesa de botequim também é bate-papo e harmonia. Basta uma gargalhada para o riso contagiar todo o ambiente. Nenhuma risada se perde por mal-entendido ou desavença.
Em que outro lugar do mundo se encontraria tanta cultura, sabedoria e informação como na mesa de um botequim? Tudo ali é malícia, malandragem, esperteza e manha – conhecimento, ciência e erudição. 
Foi na despretensiosa inocência de uma prosa de botequim que encontrei algumas das pessoas mais interessantes que já conheci – homens e mulheres da vida. Gente, que independente da profissão, era a civilidade em pessoa.
Claro que há muita cafajestice por aí, e não sou eu que vou passar atestado de bons antecedentes pra mau-caráter. Cada sem-vergonha com a sua calhordice – que infâmia e patifaria é o que não faltam neste mundão velho e sem porteira.
Mas como é bom encontrar na relação com o outro reciprocidade. Minhas afinidades de botequim são assim, um momento raro de alegria. Quase sempre entusiasmo e empolgação.
Nossas rodinhas de conversas, botequinescas ou virtuais, quase sempre dão o que falar. E como falam. Falam que é uma delícia.
Ainda agorinha, mesmo. Falamos de Spinoza, futebol e religião. Mulher, física quântica, candomblé e eleição.  Ontem, foi dia de Lisboa e Cosme Velho – Machado e Eça esgrimindo preferências.
Prosa de botequim é sem firula. Quase sempre, irreverência e simpatia.
Haja camaradagem pra tanta cumplicidade e ousadia.

Para Nivaldo, Carlão (Crema), Carlão (Ortigoza), Jaci, Rafael e Fabio.
Avram Ascot
ACF/031218

CALDEIRÃO DE ESTÓRIAS


cobra-norato (2)

Beira de fogo é bom
Lugar pra tudo contar
Estórias de amedrontar
Tavinho Moura e Murilo Antunes
Vá lá, está bem. Neste minúsculo mundinho web streaming, já não existe mais. Mas gosto mesmo é de história de lobisomem e assombração.  Aliás, historia não. Estória, assim mesmo, com “e” de lorota e imaginação. Estórias da época em que o mundo ainda era grande e todo o mistério da humanidade se resumia a alma penada, visagem e aparição.
Acontece que o planeta.com virou uma aldeola desengraçada em que tudo se explicita e o mundo ficou chato pra cacete – o sobrenatural não fascina mais nem criancinha de calça curta e pirulito em punho.
Pra ser sincero, de verdade mesmo, pirulito e calça curta são verdadeiras lendas urbanas. Quase não se vê. Estilingue então, nem se fala. Era com ele que se seguia o rastro de anu, sanhaço, passo preto, mula-sem-cabeça, saci, mundiação.
Antes da invenção do mundo web, o extraordinário era um país do faz de conta. Para além de suas fronteiras, adultos e crianças viviam nos domínios da imaginação.
Não. Não é papo de velho, não. Aquela história de no meu tempo não era assim. Meu tempo ainda é este aqui. O espaço virtual também é minha praia, meu escritório, meu quintal.
Mas que falta faz o calafrio na espinha, aquele friozinho na barriga – efeitos colaterais das invenções do extraordinário. Babás, avós e tias velhas eram verdadeiras feiticeiras nos iniciando nos segredos do sobrenatural. Em baús de sete chaves, guardavam os mistérios do encoberto.
Tudo o que fosse mágico, maravilhoso e místico estava misturado ali no caldeirão do oculto de onde tiravam a atração de seus feitiços, a magia de seus encantamentos.
A simpatia com que contavam os seus causos era puro fascínio e sedução. Impossível ficar indiferente a tanto entusiasmo e embruxação.
Tempos fabulosos esses em que os dedos ágeis da imaginação punham uma pitada de bravura no tempero da realidade. O mundo era uma aventura – a vida inteira uma façanha.
Viver neste mundo era um desassombro que exigia muita valentia e arrojo. O caboclo precisava de muita coragem e afoiteza para enfrentar de peito aberto e a olho nu os eventos, causos e ocorrências que aqui se vão contar.
Se o amigo, tem todo esse atrevimento – seja bem vindo e bom encantamento. A amiga também se sinta à vontade para exercitar toda essa sua ousadia.
Avram Ascot
ACF/141118
(Continua…)

LOURO & CÚRCUMA


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Meu amigo Tom diz-que sua secretária, a Geni, resolveu colocar folhas de louro no seu feijão e foi um psicorebosteio só. Lucy in the Sky with Diamonds em ritmo de James Brown, fandango e polca.
Vai daí, como ando meio de cara com meu crush, o tédio. Resolvi pedir que minha secretária, a Epifânia, colocasse um pouquinho de louro no meu pirão de peixe-boi com alcaparras.
Deu ruim. Entrei numa vibe santo daime de fazer inveja à sunga de crochê do mala do posto nove. O que é isso, companheiro?
Chá, delírio puro…
Foi sentar na cadeira de balanço que herdei da vovó, e pronto… Lá veio a carantonha feia do general Mourão me colocar caraminholas na cachola.
Preguei o olho, e lascou-se.  Desembestei a bestar.  Num enredo meio Glauber, Visconti e Tarantino.
Leopardos, pulp fiction e apoteose na avenida.
Sem mais avisos, urnas são fraudadas, eleições são cancelas. E contragolpe é desfraldado.
O Brasil (re)vira Império.
O Andrade vira Príncipe Regente e dá indulto ao Ogro-ideia.
Refeito de seu exílio e banimento, o Ogro-ideia coroado Imperador Perpétuo e Vitalício do Brasil, condena os facistóides todos ao degredo perpétuo no além mar.
Depois, ato contínuo e em continência, faz de todos lgbts, indígenas, quilombolas, afro-brasileiros, fracassadas, mães e avós solteiras a nova nobreza brasileira.
Duques e duquesas à mão-cheia. Coisominions na correia.
Santa cúrcuma de meus pecados, essa folha de louro é um perigo.

 

Avram Ascot
ACF/180918

Profecia


Moda de Viola

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Dia inteiro sol a pique. À tardinha, trovoada e ventania. A noite chega trazendo no vento o que, no vento, pelo vento vinha: muita chuva e enxurrada. O mundo todo desabando, rio e córgo transbordando. Benza D’us, que chuvarada. Manhãzinha, lá na roça, o campo inteiro faz florada. Duas caboclas, olhos banzos, uns verdes, outros breu jabuticaba, no coração da gente abrem picada, enquanto cruzam o laranjal.
E bem ali, entre a roça e o matagal, no meio fio do laranjal, uma clareira abriga, esconde, um vilarejo. O casario disposto em cruz, duas vias se cortando, uma viela e a principal, dita avenida. De sapê ou pau-a-pique, trinta casas se aventuram escapar da desventura de nesse ermo existir. Mas o povo aqui é bravo, com brio e garra do barro foi tirando o quanto exige a precisão. E, assim, foi-se firmando nos confins desse sertão. Igreja. Escola. Prefeitura e a prisão. Cadeiazinha tão vazia que quase desmorona de abandono ou solidão. Seu último hóspede foi o bebo Querendão, que há muito se finou de bebedeira, nó nas tripas, ou sezão. E lá nos fundos, nas rabeiras, onde finda o povoado, num cercado aprisionado, o lugar mal-assombrado, que deixa todos assustados. Para lá, além dos mortos, vão apenas os desterrados e proscritos. Feiticeiros e mendigos. Nem bandido, alma penada, por ali se aventuram. De cemitério e fogo fátuo, até assombração tem medo.
E essa gente tão singela e interiorana, em noites de silêncio e lua alta, também tem os seus segredos, seus mistérios, seus baús de sete chaves. De enigmas e juramentos seu mundo todo está cheio. Pactos sanguíneos e sangrentos unem aos santos os profanos. Fossem outros esses tempos, meu D’us do céu que contratempo. Mas nesse mil novecentos e alguma coisa, há no mundo ainda muito o que ver, sentir, ouvir. Muita rixa há de vingar, muita vingança seu rastro há de deixar. 
E enquanto vinga o que o insólito há de parir, muito ainda há por vir. Lobisomens e sacis com jaguatiricas e guarás vão competir. Cães e lobos essa gente dividir. Cartomantes e ciganas, nas linhas de tantas mãos, muitos sonhos vão tecer. Santos, doidos e profetas o povo todo confundir. Como o Serafim que ali vem, fumo e faca na bainha. No bornal, farinha.
Nesse mundo de outros tempos, a lei manda que se una cada macho a uma fêmea. Mas esse aí tem duas delas. E anda incubando o embrião duma tragédia. Sol e aço, ódio e dor, turvam as vistas, meu senhor.
E essas duas, que inda agorinha o laranjal iluminavam, são desse um mulher e amásia. A dos olhos negros é fogosa. A dos verdes, sensual. Uma, dengosa juriti. Outra, meloso bem-te-vi. Ambas, almíscar e patchuli. Em noite clara de luar, vagalumes vêm escoltar de uma e outra o olhar.
E a viola em desafio vai afiando suas cordas, lâminas e punhais. Misturada a um qualquer possível pranto, a felicidade vai chorando, entre boleros, mil milongas. Nesse tarô de buenas-dichas, quem primeiro jurar vingança é quem mais dança. 
 O Serafim vem de sua liça de caixeiro viajante, e viajado, totalmente extenuado. Traz na bagagem, para cada uma de suas prendas o seu mimo. Para a bem-te-vi traz gramofone. Para juriti, vistoso rádio. Vem contente, a natureza é seu mundo. Esse sertão, todo seu lar. Mas nos astros, em sua sina, o destino está escrito. Dentro em breve o futuro já não será o que antes era. 
Quando daqui a meses, ou quem sabe anos, num festivo dia de algazarra e gritaria, o rádio superar do gramofone a melodia, da boca inspirada e instruída de um qualquer intuitivo avô, iluminado, o presságio sairá: “Esse negócio vai acabar com a criação de passarinhos”.
Avram Ascot/ACF

 

EROS MARQUETEIRO


CRONICA-5

Em algum ponto impreciso de nossa história ancestral, um deus anárquico e idealista tirou do abandono de sua imaginação a imemorial sentença: crescei e diversificai!
Foi o suficiente para que a humanidade alucinasse e começasse a divergir nisto e naquilo. A partir daí, não houve consenso que nos livrasse do mal-entendido, amém. Divergimos em tudo. Contradizer é o que mais adoramos fazer, até mesmo quando não temos nada a dizer.
A única coisa na qual nunca discordamos é na safadeza. A sacanagem é preferência universal. Patifaria e pouca-vergonha sempre uniram a humanidade.
Desde os tempos da pré-histórica e sóbria garçonnière até a época das paradisíacas e cinematográficas suítes presidenciais dos motéis de hoje que a vadiação une gregos e baianos. Fornicai e multiplicai, disse aquele deus libidinoso e ancestral.
Talvez por isso, deu uma vontade danada de montar um motel com pet hostel, playground e baby care. Tudo prime, class, style e bem comportadinho como pede o figurino VIP, a moral e os bons costumes. Nenhum contato das crianças ou dos pets com a sem-vergonhice.
Se minha santa Afrodite do Cupido em pé me ajudar, mato dois coelhos com uma cusparada só – faço minha estreia apoteótica no Brasilão neoliberal e empreendedor. E ainda viro gente que faz.
Já imaginou minha facia na revista Ocê? Eu de terninho slim azul-marinho da Ralph Lauren dando entrevista num geenetê qualquer da vida? Alpinismo social de dar nojo na esquerda korin e deixar emergente troncho de inveja.
Mas meu empreendimento é mais filantrópico que usurário. Humanismo puro, sabia? Penso naquelas pobres criaturinhas de Deus, que devido aos filhos pequenos ou aos queridos animaizinhos de estimação, não podem dar aquela despretensiosa e singela puladinha de cerca vespertina.
Já imaginou o merchandising? Promoção agora dá: brinquedoteca, contação de histórias e baby sitter para a criançada mais hotelzinho para seu totó. Cem pilas. Almoço executivo, lanchinho para as crianças e ração para o seu pet, grátis. Deixe seus inocentes em segurança e vá direto ao que interessa.
Ah, e na saída ainda fornecemos atestado de  cabeleireiro  ou dentista abonando aquelas quatro diminutas horas de seu longo dia. Quero ver você arrumar desculpa agora para não dar umazinha.
Não é uma pérola publicitária? Morra, DPZ/Taterka!
Sei, periga a TFP ou Liga das Senhoras de Santana ressurgirem das cinzas lá em Phoenix, Arizona.  Mas sem dúvida há quem vá adorar toda essa zona.
Avram Ascot
ACF/270718