JUST STANDING IN A DOORWAY


Galgos

 

 

Watching girls go passing by
It ain’t the latest thing
I’m just standing in a doorway
I’m just trying to make some sense
 Out of these girls go passing by
The tales they tell of men
 Jagger/K. Richards

 

O homem veio vindo, olhos vidrados na vitrine sem vidro do decote da moça. O sorriso destilando a embriaguez sem álcool da libido incontida. Na cara deslavada, o ar de tranquilidade era o esboço de desejos impublicáveis. Aquele sossego era pura euforia.
Distraída, a moça só tinha olhos para a elegância sutil de seus pets. O irrequieto casal de galgos que levava ali pela coleira. Os cães eram puro alvoroço e alegria. Leves e esguios eram a personificação da elegância desfeita em harmonia. Puro equilíbrio e simetria.
Envolvido na distração de seus impulsos, o homem foi-se aproximando da moça – olhos fixos na razão de seu deleite. A excitação fazendo festa em seu alvoroço. O bom humor abrindo sorrisos em seu entusiasmo.
E assim que se viram frente a frente, a distraída e o desatento, ele lentamente se abaixou, acariciou os cães com desinteresse e inquietação. E, no frenesi da embriaguez, olhos postos na vitrine sem vidro de seus delírios e transparências, sussurrou – eles são lindos!
Desatenta e displicente, com estudada indiferença, ela responde, enquanto acaricia… Os cães – eles também gostaram de você.
Sem desconcerto que lhe compensasse a decepção, com incontida malícia e agilidade, ele acrescenta – eu me referia aos seus… Olhos.

 

Avram Ascot
              ACF/020817   
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ALERTA


florescer
Madrugada. Desperto. Novamente no peito, este aperto. Na semipenumbra do que ainda resta da noite, a luz duela com as sombras. Angústia é o nome deste meu desencosto.
É a terceira vez que acordo desde que me deitei. Prego os olhos, não durmo. Ressono, apenas. Um semissono sem sonhos andando em círculos em volta de mim.
Lá fora, ainda chove. Cá dentro, o balde transborda. Uma lâmina fina de água forma no assoalho um tapete – o chão é um lago sem peixes.
O frio ainda faz com o vento firulas, soprando por entre as frestas a friagem. O casebre de madeira é agora uma imensa geladeira – caixote vazio balançando na borda da ribanceira.
Mais uma vez, acendo um cigarro. Último do maço. Fósforo, também já não tenho. O lume fraco que abrigo entre os dedos é o último da caixa.
Antes que a chama se apague, acendo o pavio da lamparina. Fustigo o fogão, acendo o braseiro. Tudo puro instinto, não minto.
Esse semissono me deixa dopado.
Subitamente aquecida, a choupana ganha ares de estufa. Do meu cérebro brotam sementes de uma qualquer erva alucinógena.
Essas luzinhas no teto são restos de estrelas cadentes – detritos de uma galáxia distante. 
O som do silêncio faz cócegas no ouvido. Do outro lado da noite, os cães ladram a distância.
Pouco a pouco sou vencido, sem esforço.
A madrugada ainda insiste em ficar mais um pouco.
Sem saída, fera em fuga, adormeço.
Lá longe, andam campeando meu rastro.

FUGA


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Andante ma non troppo
Acordo. No meio da noite, tudo em volta é escuro. O mundo inteiro, silêncio. A manhã anda distante, perambulando no outro lado do mundo. O vento lá fora não me deixa mentir, a escuridão é um monstro – disforme, distante, indiferente. No topo do mundo, tudo é vazio. Cá embaixo, faz frio.  
Nada acontece no vazio da cabana semideserta.
Sozinho, sinto o vento entrando pelo vão entre as frestas, a madeira estalando e rangendo.
No telhado, tamborila o som grosso e torrencial da chuva que começa a cair, gota por gota, no vão da goteira. Logo, o balde não dá conta de tanto aguaceiro.
Levanto. No escuro mesmo, acendo um cigarro. O lume da brasa põe fogo na noite. Vagalumes acordam do sono, o casebre se enche de luz – alfa do centauro em anúncio néon.
Lá fora, os olhos dos bichos alumiam a noite – faróis guiando navios na orla do nada.
Volto a deitar. Trago, solto a fumaça. Da névoa emergem fantasmas. A cara mal-assombrada de meus medos cria coragem e sai do esconderijo das máscaras.  
Puxo o cobertor. O calor sob as fibras da lã dá consolo à minha insegurança. Ainda há pouco, tudo era tão frio. Só dentro de mim permanece a geleira. Daí pra frente, tudo é incêndio e fogueira.
Lá longe no teto, uma teia de aranha se esconde no vão entre as sombras. Fecho, abro os olhos. Não vejo nada. Nenhuma luz me chega às retinas.
Toda noite é essa rotina. A insônia adormece meu sono, o silêncio desperta do exílio toda a insegurança dessa minha existência.
Resisto. Desisto. Adormeço. Amanhã, novamente, o dia é de fuga. A caçada por onde termina, principia.
A vida é sempre isso, o caminho por aonde nunca se foi.
Avram Ascot

 

MESTRES CERVEJEIROS


Não existe espaço mais democrático que uma boa mesa de botequim. No desabrigo de suas redondezas, todos são bem vindos. Boteco que se preze é casa de gregos e baianos.  Oásis de biriteiros e boêmios. Bem-estar de comedores e cornudos. Reduto de subversivos e reaças. Retiro de putas e donzelas.  Refúgio de mãe-de-família e mulher-dama.
No desabrigo dum botequim, todos estão expostos ao desamparo. No frágil equilíbrio de uma mesa bar, toda tolerância é impaciente. Basta o sujeito achincalhar o time do outro e, pronto, danou-se. Lá se foi pelo ralo toda fineza e cortesia.
Mas para além de toda essa gastura, também se vê muita gentileza e educação – que nem só de bate-boca e discussão vive o boteco. Mesa de botequim também é bate-papo e harmonia. Basta uma gargalhada para o riso contagiar todo o ambiente. Nenhuma risada se perde por mal-entendido ou desavença.
Em que outro lugar do mundo se encontraria tanta cultura, sabedoria e informação como na mesa de um botequim? Tudo ali é malícia, malandragem, esperteza e manha – conhecimento, ciência e erudição. 
Foi na despretensiosa inocência de uma prosa de botequim que encontrei algumas das pessoas mais interessantes que já conheci – homens e mulheres da vida. Gente, que independente da profissão, era a civilidade em pessoa.
Claro que há muita cafajestice por aí, e não sou eu que vou passar atestado de bons antecedentes pra mau-caráter. Cada sem-vergonha com a sua calhordice – que infâmia e patifaria é o que não faltam neste mundão velho e sem porteira.
Mas como é bom encontrar na relação com o outro reciprocidade. Minhas afinidades de botequim são assim, um momento raro de alegria. Quase sempre entusiasmo e empolgação.
Nossas rodinhas de conversas, botequinescas ou virtuais, quase sempre dão o que falar. E como falam. Falam que é uma delícia.
Ainda agorinha, mesmo. Falamos de Spinoza, futebol e religião. Mulher, física quântica, candomblé e eleição.  Ontem, foi dia de Lisboa e Cosme Velho – Machado e Eça esgrimindo preferências.
Prosa de botequim é sem firula. Quase sempre, irreverência e simpatia.
Haja camaradagem pra tanta cumplicidade e ousadia.

Para Nivaldo, Carlão (Crema), Carlão (Ortigoza), Jaci, Rafael e Fabio.
Avram Ascot
ACF/031218

CALDEIRÃO DE ESTÓRIAS


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Beira de fogo é bom
Lugar pra tudo contar
Estórias de amedrontar
Tavinho Moura e Murilo Antunes
Vá lá, está bem. Neste minúsculo mundinho web streaming, já não existe mais. Mas gosto mesmo é de história de lobisomem e assombração.  Aliás, historia não. Estória, assim mesmo, com “e” de lorota e imaginação. Estórias da época em que o mundo ainda era grande e todo o mistério da humanidade se resumia a alma penada, visagem e aparição.
Acontece que o planeta.com virou uma aldeola desengraçada em que tudo se explicita e o mundo ficou chato pra cacete – o sobrenatural não fascina mais nem criancinha de calça curta e pirulito em punho.
Pra ser sincero, de verdade mesmo, pirulito e calça curta são verdadeiras lendas urbanas. Quase não se vê. Estilingue então, nem se fala. Era com ele que se seguia o rastro de anu, sanhaço, passo preto, mula-sem-cabeça, saci, mundiação.
Antes da invenção do mundo web, o extraordinário era um país do faz de conta. Para além de suas fronteiras, adultos e crianças viviam nos domínios da imaginação.
Não. Não é papo de velho, não. Aquela história de no meu tempo não era assim. Meu tempo ainda é este aqui. O espaço virtual também é minha praia, meu escritório, meu quintal.
Mas que falta faz o calafrio na espinha, aquele friozinho na barriga – efeitos colaterais das invenções do extraordinário. Babás, avós e tias velhas eram verdadeiras feiticeiras nos iniciando nos segredos do sobrenatural. Em baús de sete chaves, guardavam os mistérios do encoberto.
Tudo o que fosse mágico, maravilhoso e místico estava misturado ali no caldeirão do oculto de onde tiravam a atração de seus feitiços, a magia de seus encantamentos.
A simpatia com que contavam os seus causos era puro fascínio e sedução. Impossível ficar indiferente a tanto entusiasmo e embruxação.
Tempos fabulosos esses em que os dedos ágeis da imaginação punham uma pitada de bravura no tempero da realidade. O mundo era uma aventura – a vida inteira uma façanha.
Viver neste mundo era um desassombro que exigia muita valentia e arrojo. O caboclo precisava de muita coragem e afoiteza para enfrentar de peito aberto e a olho nu os eventos, causos e ocorrências que aqui se vão contar.
Se o amigo, tem todo esse atrevimento – seja bem vindo e bom encantamento. A amiga também se sinta à vontade para exercitar toda essa sua ousadia.
Avram Ascot
ACF/141118
(Continua…)

LOURO & CÚRCUMA


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Meu amigo Tom diz-que sua secretária, a Geni, resolveu colocar folhas de louro no seu feijão e foi um psicorebosteio só. Lucy in the Sky with Diamonds em ritmo de James Brown, fandango e polca.
Vai daí, como ando meio de cara com meu crush, o tédio. Resolvi pedir que minha secretária, a Epifânia, colocasse um pouquinho de louro no meu pirão de peixe-boi com alcaparras.
Deu ruim. Entrei numa vibe santo daime de fazer inveja à sunga de crochê do mala do posto nove. O que é isso, companheiro?
Chá, delírio puro…
Foi sentar na cadeira de balanço que herdei da vovó, e pronto… Lá veio a carantonha feia do general Mourão me colocar caraminholas na cachola.
Preguei o olho, e lascou-se.  Desembestei a bestar.  Num enredo meio Glauber, Visconti e Tarantino.
Leopardos, pulp fiction e apoteose na avenida.
Sem mais avisos, urnas são fraudadas, eleições são cancelas. E contragolpe é desfraldado.
O Brasil (re)vira Império.
O Andrade vira Príncipe Regente e dá indulto ao Ogro-ideia.
Refeito de seu exílio e banimento, o Ogro-ideia coroado Imperador Perpétuo e Vitalício do Brasil, condena os facistóides todos ao degredo perpétuo no além mar.
Depois, ato contínuo e em continência, faz de todos lgbts, indígenas, quilombolas, afro-brasileiros, fracassadas, mães e avós solteiras a nova nobreza brasileira.
Duques e duquesas à mão-cheia. Coisominions na correia.
Santa cúrcuma de meus pecados, essa folha de louro é um perigo.

 

Avram Ascot
ACF/180918

Profecia


Moda de Viola

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Dia inteiro sol a pique. À tardinha, trovoada e ventania. A noite chega trazendo no vento o que, no vento, pelo vento vinha: muita chuva e enxurrada. O mundo todo desabando, rio e córgo transbordando. Benza D’us, que chuvarada. Manhãzinha, lá na roça, o campo inteiro faz florada. Duas caboclas, olhos banzos, uns verdes, outros breu jabuticaba, no coração da gente abrem picada, enquanto cruzam o laranjal.
E bem ali, entre a roça e o matagal, no meio fio do laranjal, uma clareira abriga, esconde, um vilarejo. O casario disposto em cruz, duas vias se cortando, uma viela e a principal, dita avenida. De sapê ou pau-a-pique, trinta casas se aventuram escapar da desventura de nesse ermo existir. Mas o povo aqui é bravo, com brio e garra do barro foi tirando o quanto exige a precisão. E, assim, foi-se firmando nos confins desse sertão. Igreja. Escola. Prefeitura e a prisão. Cadeiazinha tão vazia que quase desmorona de abandono ou solidão. Seu último hóspede foi o bebo Querendão, que há muito se finou de bebedeira, nó nas tripas, ou sezão. E lá nos fundos, nas rabeiras, onde finda o povoado, num cercado aprisionado, o lugar mal-assombrado, que deixa todos assustados. Para lá, além dos mortos, vão apenas os desterrados e proscritos. Feiticeiros e mendigos. Nem bandido, alma penada, por ali se aventuram. De cemitério e fogo fátuo, até assombração tem medo.
E essa gente tão singela e interiorana, em noites de silêncio e lua alta, também tem os seus segredos, seus mistérios, seus baús de sete chaves. De enigmas e juramentos seu mundo todo está cheio. Pactos sanguíneos e sangrentos unem aos santos os profanos. Fossem outros esses tempos, meu D’us do céu que contratempo. Mas nesse mil novecentos e alguma coisa, há no mundo ainda muito o que ver, sentir, ouvir. Muita rixa há de vingar, muita vingança seu rastro há de deixar. 
E enquanto vinga o que o insólito há de parir, muito ainda há por vir. Lobisomens e sacis com jaguatiricas e guarás vão competir. Cães e lobos essa gente dividir. Cartomantes e ciganas, nas linhas de tantas mãos, muitos sonhos vão tecer. Santos, doidos e profetas o povo todo confundir. Como o Serafim que ali vem, fumo e faca na bainha. No bornal, farinha.
Nesse mundo de outros tempos, a lei manda que se una cada macho a uma fêmea. Mas esse aí tem duas delas. E anda incubando o embrião duma tragédia. Sol e aço, ódio e dor, turvam as vistas, meu senhor.
E essas duas, que inda agorinha o laranjal iluminavam, são desse um mulher e amásia. A dos olhos negros é fogosa. A dos verdes, sensual. Uma, dengosa juriti. Outra, meloso bem-te-vi. Ambas, almíscar e patchuli. Em noite clara de luar, vagalumes vêm escoltar de uma e outra o olhar.
E a viola em desafio vai afiando suas cordas, lâminas e punhais. Misturada a um qualquer possível pranto, a felicidade vai chorando, entre boleros, mil milongas. Nesse tarô de buenas-dichas, quem primeiro jurar vingança é quem mais dança. 
 O Serafim vem de sua liça de caixeiro viajante, e viajado, totalmente extenuado. Traz na bagagem, para cada uma de suas prendas o seu mimo. Para a bem-te-vi traz gramofone. Para juriti, vistoso rádio. Vem contente, a natureza é seu mundo. Esse sertão, todo seu lar. Mas nos astros, em sua sina, o destino está escrito. Dentro em breve o futuro já não será o que antes era. 
Quando daqui a meses, ou quem sabe anos, num festivo dia de algazarra e gritaria, o rádio superar do gramofone a melodia, da boca inspirada e instruída de um qualquer intuitivo avô, iluminado, o presságio sairá: “Esse negócio vai acabar com a criação de passarinhos”.
Avram Ascot/ACF

 

EROS MARQUETEIRO


CRONICA-5

Em algum ponto impreciso de nossa história ancestral, um deus anárquico e idealista tirou do abandono de sua imaginação a imemorial sentença: crescei e diversificai!
Foi o suficiente para que a humanidade alucinasse e começasse a divergir nisto e naquilo. A partir daí, não houve consenso que nos livrasse do mal-entendido, amém. Divergimos em tudo. Contradizer é o que mais adoramos fazer, até mesmo quando não temos nada a dizer.
A única coisa na qual nunca discordamos é na safadeza. A sacanagem é preferência universal. Patifaria e pouca-vergonha sempre uniram a humanidade.
Desde os tempos da pré-histórica e sóbria garçonnière até a época das paradisíacas e cinematográficas suítes presidenciais dos motéis de hoje que a vadiação une gregos e baianos. Fornicai e multiplicai, disse aquele deus libidinoso e ancestral.
Talvez por isso, deu uma vontade danada de montar um motel com pet hostel, playground e baby care. Tudo prime, class, style e bem comportadinho como pede o figurino VIP, a moral e os bons costumes. Nenhum contato das crianças ou dos pets com a sem-vergonhice.
Se minha santa Afrodite do Cupido em pé me ajudar, mato dois coelhos com uma cusparada só – faço minha estreia apoteótica no Brasilão neoliberal e empreendedor. E ainda viro gente que faz.
Já imaginou minha facia na revista Ocê? Eu de terninho slim azul-marinho da Ralph Lauren dando entrevista num geenetê qualquer da vida? Alpinismo social de dar nojo na esquerda korin e deixar emergente troncho de inveja.
Mas meu empreendimento é mais filantrópico que usurário. Humanismo puro, sabia? Penso naquelas pobres criaturinhas de Deus, que devido aos filhos pequenos ou aos queridos animaizinhos de estimação, não podem dar aquela despretensiosa e singela puladinha de cerca vespertina.
Já imaginou o merchandising? Promoção agora dá: brinquedoteca, contação de histórias e baby sitter para a criançada mais hotelzinho para seu totó. Cem pilas. Almoço executivo, lanchinho para as crianças e ração para o seu pet, grátis. Deixe seus inocentes em segurança e vá direto ao que interessa.
Ah, e na saída ainda fornecemos atestado de  cabeleireiro  ou dentista abonando aquelas quatro diminutas horas de seu longo dia. Quero ver você arrumar desculpa agora para não dar umazinha.
Não é uma pérola publicitária? Morra, DPZ/Taterka!
Sei, periga a TFP ou Liga das Senhoras de Santana ressurgirem das cinzas lá em Phoenix, Arizona.  Mas sem dúvida há quem vá adorar toda essa zona.
Avram Ascot
ACF/270718

 

DUAS COISAS


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Duas coisas são certas nesta vida: todos vamos morrer e o jogo só termina aos quarenta e cinco do segundo tempo. Mas, entre uma certeza e outra, há o arbítrio do imponderável, os caprichos do imprevisível. E se o jogo só termina quando acaba, quase sempre estamos ao sabor das conveniências do árbitro que sabe lá quantos minutos de acréscimo vai dar à partida – que às vezes se arrasta monótona e sem graça e noutras ganha ritmos alucinantes de montanha russa.
Há ainda os apupos e xingamentos da torcida organizada com seus gritos de guerra e olhares de seca-pimenteira. Claro que nem toda torcida é organizada e a bagunça no mais das vezes é a regra do jogo. Mas basta um golzinho perdido, um chutezinho no travessão, um pênalti desperdiçado, e pronto, lá se vai ladeira abaixo a certeza dos prognósticos e vaticínios feitos ao sabor da empolgação.
E se jogo é jogo e treino é treino, nem sempre o que se treina é o que se faz. Afinal, o Sobrenatural também tem lá suas estratégias – nome, sobrenome, origem e pedigree. E nunca está sozinho que pirraça pouca é bobagem, e bom mesmo é ver o adversário ali a um pelinho da zona de rebaixamento: pipocando mais do que cabeça-de-bagre em dia de clássico.
E não importa se o videoteipe é burro, o bom da vida não tem replay. Seja lá qual for a situação, a melhor tática é se comunicar. No jogo da vida, a cabeça é o terceiro pé. Afinal, a verdade está sempre com a imaginação. A realidade é um simples baixo-astral onde tudo entra pelo cano e vai por água abaixo. A vida é simples, o difícil é viver bonito.
Por isso, o bom mesmo é ganhar nos noventa minutos que as prorrogações são por natureza intermináveis e quase sempre acabam em pênalti e desperdício. A vida, assim como o esporte, é o reino da liberdade exercida ao ar livre. Quase sempre é linear, mas exige astúcias de drible.
Mais ainda, nesta mistura de poesia e aguardente que se chama a existência, tudo acaba em pizza ou bagaceira. Malas pretas, viradas de mesa e tapetões são a trilha sonora de muitos mimimis e nhenhenhéns.
Aqui como lá, cartolas há. E se desse mato não sai coelho, dos mandachuvas não brota água, mas esguicha propina, borbulha dinheiro.
Ah, a vida se soubesse os encantos que tem, não seria tão breve e resumida. Esse sopro, quase brisa, disfarçado de ventania. Amistoso tomando ares de dérbi.
Casa, rua, escola, trabalho, aventura nada nesta vida é tão certo quanto a evidência dessa máxima, lema e regra da existência – apenas duas coisas são inevitáveis nesta vida: todos vamos morrer e o jogo só termina quando acaba.
O resto é firula, overdose de arrogância de quem fica penteando a bola.

 

Avram Ascot
ACF/020218

TORPEDOS DA LOPES CHAVES


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Eu sofro de gigantismo epistolar.
Mário de Andrade

 

Uma delícia desvairada ler Mário de Andrade. Mais do que os livros, as cartas. Numa época que ainda não existiam mídias e meios de comunicação sofisticados, Mário reinventava distâncias e tecia redes sociais inimagináveis. Suas cartas eram um primor de delícia e estilo. Tinha a vocação para a escrita e vivia antenado no que acontecia no Brasil e além. Novidadeira por excelência, sua percepção era um satélite a serviço de uma inventividade ímpar. Era único, embora fosse igualmente trezentos, trezentos e cinquenta – como disse em um poema seu novidadeiro
Sua generosidade intelectual era a mãe ciosa de suas missivas. Acolheu em correspondência assídua e paternal uma extensa safra de modernistas emergentes e outros tantos de carreira sólida e bem assentada na terra fértil dos anos pós semana de 22.
A cumplicidade fraternal de sua pena não fazia distinção de origem ou estilo. Com a mesma sensibilidade e desenvoltura, tanto elogiava a engenhosidade de quem merecia como criticava o desleixo de quem de direito.
Ensinou o jovem Drummond a escandir versos, foi o diabo dos toques do menino Fernando Sabino, vislumbrou o gênio por trás da loucura etílica do Lima Barreto e criticou a falta de vocação para a alegria dos moços seus contemporâneos.
Guiomar Novaes e Mozart Camargo Guarnieri foram privilegiados com a refinada percepção de seus ouvidos musicais. O Mário missivista era também exímio musicólogo. Com os ouvidos e sensibilidade depurados pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, do qual também foi professor.
Sua atuação como crítico de música e arte alargou o prestígio de gente como Heitor Villa-Lobos, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, entre tantos. O Mário tinha faro para o talento. Até sua arenga com o Oswald de Andrade foi uma briga estética. O Oswaldo era mesmo meio antropófago. O homem padecia da vocação para o escândalo, mas como escrevia: o senhor Pau-brasil.
Do Macunaíma nem falo que aquilo é um acontecimento musical digno de um Franz Liszt – rapsódia em estado puro de rebeldia: novela de cavalaria em si bemol. A muiraquitã é meu Santo Graal.
O Amar verbo intransitivo é a gramática do romance em estado puro de ficção. Carlos Sousa Costa e Fräulein Elza são personagens literárias dignas de um Gorki, um Dostoievski. Mas foi o nosso Mário quem as engendrou e soprou-lhes nas narinas o fôlego extenso dos grandes amantes.
E o que dizer da poesia, que para além dos galicismos a berrarem nos desertos da América, é uma carne de peixe, de resistência mansa e de um branco ecoando azuis profundos.  Além de um retrato fiel de uma São Paulo que ainda nem era Sampa.
Sim. Tudo isso é um mundo, mas o bom mesmo é ler as cartas do Mário. Por quê? Porque tudo isso está lá, despido do ranço das análises acadêmicas e do suplício das notas de rodapé.
Uma delícia desvairada ler o Mário criador de estéticas. Mas o bom mesmo são as cartas, nelas o homem zomba do mito e quer apenas viver a vida como um devoto da religião da alegria.
Avram Ascot
ACF/120118