JUST STANDING IN A DOORWAY


Galgos

 

 

Watching girls go passing by
It ain’t the latest thing
I’m just standing in a doorway
I’m just trying to make some sense
 Out of these girls go passing by
The tales they tell of men
 Jagger/K. Richards

 

O homem veio vindo, olhos vidrados na vitrine sem vidro do decote da moça. O sorriso destilando a embriaguez sem álcool da libido incontida. Na cara deslavada, o ar de tranquilidade era o esboço de desejos impublicáveis. Aquele sossego era pura euforia.
Distraída, a moça só tinha olhos para a elegância sutil de seus pets. O irrequieto casal de galgos que levava ali pela coleira. Os cães eram puro alvoroço e alegria. Leves e esguios eram a personificação da elegância desfeita em harmonia. Puro equilíbrio e simetria.
Envolvido na distração de seus impulsos, o homem foi-se aproximando da moça – olhos fixos na razão de seu deleite. A excitação fazendo festa em seu alvoroço. O bom humor abrindo sorrisos em seu entusiasmo.
E assim que se viram frente a frente, a distraída e o desatento, ele lentamente se abaixou, acariciou os cães com desinteresse e inquietação. E, no frenesi da embriaguez, olhos postos na vitrine sem vidro de seus delírios e transparências, sussurrou – eles são lindos!
Desatenta e displicente, com estudada indiferença, ela responde, enquanto acaricia… Os cães – eles também gostaram de você.
Sem desconcerto que lhe compensasse a decepção, com incontida malícia e agilidade, ele acrescenta – eu me referia aos seus… Olhos.

 

Avram Ascot
              ACF/020817   

A FUGA DO SANTO


Dia de São João – Militão dos Santos

Santo Em pé. Sozinho. Largado. Ali no abandono do altar. O santo queria mesmo era sentar. Tirar aquela auréola da cabeça. A alpercata lhe apertando o joanete dava uma comichão danada na cachola. Vontade doida de rasgar a túnica e sentar o cajado nas fuças do primeiro fiel que aparecesse por ali, desfiando em mil novenas um rosário de muitas ladainhas.

Não suportava mais aquele andor. A cara descarada do coroinha fazendo pouco do ora pro nobis das beatas. A procissão que perambulava sua imagem em romaria. A goteira, ali do lado do ostensório, que lhe encharcava a cara de respingos e diziam que eram lágrimas que ele vertia.

A dinheirama que os fiéis deixavam ali aos pés de sua imagem e alimentava, não os pobres, mas as bebedeiras do vigário e as visitas do sacristão à zona da cidade.

O pior de tudo era a cara de pouco caso que os descrentes e hereges faziam diante de sua sacrossanta figura. Aquilo lhe deixava prostituto de vivência. Não fosse um santo, mandava todos à puta que os pariu.

Mas por dever de beatitude e santidade nunca deixou de ouvir de ninguém as queixas. Apenas, uma vez ou outra, esquecia os pedidos ali mesmo no altar.

Qualquer outro que atendesse aquela graça que sua graça era Dito, não Expedito.

Ninguém nunca lhe perguntou mesmo se ele queria ser santo. O que queria mesmo era ser mendigo, desvalido, vagamundo.

Mas daí, acharam que isso tudo era virtude e resolveram sua penúria beatificar. E agora, estava ele ali: sozinho e solitário no abandono do altar.

Se lhe tivessem avisado que ser santo era assim, teria fugido com a vizinha e evitado esse marasmo de hoje em dia.

E olhe que a guria até que era bonitinha. Mas em vez de fornicar, lá foi ele entrar naquela abadia. Maldito dia.

Antes, tivesse se envolvido com a Anamaria.

Hoje, seria apenas vaga lembrança na memória de outros dias. Mal entendido esquecido nas entrelinhas de anedotas, causos e estórias.

Em vez disso, lá foi ele inocente, puro e besta se entregar a embriaguez da abstinência.  A castidade fazendo com o celibato orgia.

O único porre que tomou na vida foi de padre nosso e avemaria. Pra quê? Pra virar aquela estatueta de pedra sabão ali imóvel feito fosse um monge meditando?

Soubesse que seria assim, nunca que teria sido tão certinho. Mais que isso, teria posto tanto atalho em seu caminho que até hoje estaria transviado e perdidinho.

Deixa um dia o cura deixar a porta da capela aberta pra ver se não me pelo desse altar. Saio ali pelas beiradas daquela esquina e pico a mula no lombo da primeira ventania que soprar o pó da estrada pra bem longe dessa vizinhança.

Por enquanto, vou aproveitar que não tem ninguém aqui e vou ali molhar o beiço de água benta.

Se o vigário tivesse aqui, convidava ele pruma branquinha ali no botequim da esquina.

Esse cheiro de caninha deixa a gente tonto de vontades.

Seu sacristão, tem um cigarro aí?

Hummmm, filtro vermelho. Este é dos bons?

Bora uma mão de pôquer valendo aquela vaga que sua sobrinha quer no vestibular?

Avram Ascot

ACF/200321

A RUINDADE NOSSA DE CADA DIA


Anúbis-O deus chacal

Anúbis – o deus chacal, Avram Ascot

De repente, em uma conversa com um interlocutor eventual, ouço na lata a desconcertante máxima: “O homem é ruim por natureza”. Repleta de reducionismos e preconceitos a frase é campeã de audiência no imaginário do senso comum desde a Antiguidade.
Lá pelos idos do século XVIII, Jean-Jacques Rousseau apresentou uma contrafação desse singelo aforismo, afirmando que “o ser humano nasce bom, e a sociedade o corrompe”. A afirmação caiu como uma bomba no colo da civilização judaico-cristã, que se livrava por um impasse de mágica da mácula do pecado original.
O problema com ambas as afirmações é que elas procuram persuadir pela emoção e não pela razão. São simples opiniões e não argumentos baseados na objetividade dos fatos.
Bem e mal são construções sociais. Nenhum de nós nasce bom ou ruim. Nascemos humanos. O construto social de bem e de mal vai ser elaborado a partir da sociedade em que nos inserimos.
Na visão da Antiguidade, está lá em textos sagrados das mais diversas e variadas religiões, um deus beligerante, misógino e sanguinário era sinônimo de amor e bondade.
Percebe-se, então, que noção de bem e de mal muda de sociedade para sociedade e de época para época.  Nesse sentido, Nietzsche é bastante preciso, quando afirma que “as verdades são metáforas, que se tornaram gastas ou sem força”.
Em outras palavras, toda verdade é social e historicamente construída. Portanto, a afirmação de que somos maus por natureza é extremamente simplificadora e reducionista.
É o tipo de frase que faz um apelo direto à vontade e aos sentimentos do interlocutor. Ganha pela emoção e não pela razão. Somos todos maus e perversos e precisamos nos livrar dessa mácula.
Isso desestrutura completamente aqueles que desconhecem que bem e mal não são produtos da natureza, mas construções sociais criadas a partir de uma determinada visão e interpretação de mundo.
Mais ainda, abre-se um espaço descomunal para que os oportunistas de plantão vendam no balcão das ideias prontas a convicção barata de que precisamos todos de um redentor.
O mercado é inundado por um sem número de seitas, coaches e arautos da autoajuda vendendo a redenção em módicas e suaves prestações. E todos vão dormir em paz, convictos de seu crescimento e desenvolvimento pessoal.
O problema com esse tipo de visão reducionista da realidade é que não leva em conta o quanto a elaboração de um construto social é complexa.
A visão de mundo de cada um de nós é construída a partir das influências que recebemos da sociedade à qual pertencemos. E para desnaturalizar aquilo que é uma construção social é preciso ir além do óbvio.
Repetir, irrefletidamente, que “O homem é ruim por natureza” não contribui em nada para a resolução de nossos problemas sociais, políticos ou econômicos. Apenas, nos dá uma falsa sensação de tranquilidade.
Se somos todos maus por natureza, o quê fazer, não é mesmo?
Para compreender a dinâmica social que leva à exclusão, à pobreza e à má distribuição de renda é preciso ir um pouquinho além das frases feitas e dos clichês.
Compreender os fenômenos sociais que influenciam na visão de mundo de cada sociedade, exige um esforço de reflexão que nos leve a pensar “fora da caixinha”. Afinal, como diz Merleau-Ponty, “A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo”.
Munidos das ferramentas certas podemos mudar não apenas a nossa concepção da realidade, mas também perceber o nosso lugar no mundo. Despertar para o fato de que não somos nem bons nem maus. Somos apenas humanos. Seres sociais, que constroem seu imaginário a partir de uma dada visão de mundo, social e historicamente situada.
A ideia do “homem ruim por natureza” é produto de uma visão determinista e simplificadora da realidade, há muito abandonada por quem busca entender criticamente as múltiplas possibilidades de organização e reorganização de nossa sociedade.
Avram Ascot
ACF/1602/21
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APARIÇÃO


MATITEPERÊ-UM-SACI-NA-ALMA

Matitaperê, um saci na alma. Avram Ascot
Muita gente vai dizer que perdi o juízo, o bom senso e a razão. Mas tenho aqui comigo inédita e extraordinária uma desabusada confissão. Dessas bem impublicáveis: toda despudorada e sem-vergonha.
Periga até que digam que sou um desmiolado bem alucinado e delirante. Mas desatinos e desacordos à parte, a verdade é que…  Eu acredito em assombração.
E em Saci. Mais ainda, eu vejo Saci. Um deles até já me livrou de uma assombração.
Muita gente deve estar achando tudo isso uma imensa maluqueira repleta de desacordos e contrassensos. Uma barbaridade bem tresloucada e delirante.
Mas quem tá rindo é quem nunca andou pelo mato adentro, cruzando sozinho muita campina e descampado, os olhos dos bichos espreitando os passos. A voz do vento soprando bestagem na imaginação para além de onde mora a fantasia. Calafrios e tremeliques balançando o corpo todo inteiro feito a gente fosse um bambual de vara-verde.
O amigo por acaso já topou um amontoado de orelha-de-pau no decampado duma clareira, achatada entre o matagal e uma colina, a cara lavada do fungo ali lhe espiando com ares inocentes de bolor e levedura?
Tudo armadilha. Disfarce e impostura. Cada bolorzinho daquele é um embrião de assombração.  A sementinha de um susto guardada no ventre da madeira. 
Aquilo ali é um cemitério inteiro de Saci.  Repleto de trique, saçurá e cecerê. Ou o amigo não sabe que o arteiro se fina em orelha-de-pau?
Danado esse matitaperê.
Mas arrepio mesmo, desses de provocar mil tremores e mais uma porção de estremecimentos é topar com um bambuzal no ermo do capinzal deserto.
É ali que entre chiados e rangidos nasce o Saci. Zunidos e murmúrios parindo sustos na imaginação da gente.
O vivente fica ali, todo bambo e esbodegado.  
Dentes e joelhos viram uma tremedeira só. O tique-taque do coração pura pancadaria e batedeira.
No meio do capinzal, cada gomo de bambu é o embrião de um redemoinho que guarda em seu rebojo a semente dum saci.
Basta soprar um ventinho, e pronto.  Do meio do bambual, bem no olho do redemoinho, brota um saci. O coral da carapuça envenenando a imaginação da gente.
Só quem já caminhou no desabrigo de uma campina, o vento zumbindo no vazio do descampado, sabe o quanto tem de aparição no rebolir do capinzal.
Basta o mato bulir pra imaginação se agigantar.
E a gente fica ali, alma de outro mundo, assombração em desamparo.  Visagem em abandono.
Alucinação e faz-de-conta.
Avram Ascot
ACF/280620

O GUIZO DA CASCAVEL


cobras-e-lagartos

Cobras & lagartos – Avram Ascot
Desfazer o normal há de ser uma norma.
Manoel de Barros.
Lá no meio do descampado do sertão, levavam um dedim de prosa Dona Cobra e Compadre Calango.
Dona Cobra era uma cascavel sanguinolenta, dessas de guizo sibilante e chocalho barulhento. O triangulo da cabeça, uma sinfonia de maus presságios. Indícios de mau agouro.
Aquela cara era o espanto no medo de muita gente.
Compadre Calango era um TeídeoAmeiva leso e desimportante. Lagartinho verde, sem grandes ambições. Quarenta e cinco centímetros de pura ligeireza e agitação. Mas pacato e imperturbável como um monge.
Aquela estampa não figurava no repertório dos medos de ninguém.
Mas dessa oposição nasceu uma amizade, que era em tudo um contraste de avessos. De um lado toda aquela ferocidade e danação. Pura força, exuberância e irritação. Do outro, muita tranquilidade, equilíbrio e mansidão. 
A fera e o feio era uma dupla de arrepiar cabelo em pé.
Aquilo ali em boa coisa não ia dá. Ninguém que não cria naquela amizade de afetos tão distintos.
Bem que um dia a camaradagem de toda aquela convivência e compadrio podia dar de cara com a parede. Burros e vacas se afogando em brejos e águas profundas.
Pior ainda…
Já imaginou, se no lapso dum descuido esses dois inventam, por desleixo da paixão, qualquer passatempo libidinoso que lhes suba a cabeça e às vontades?
Boa coisa não ia dá um cruzamento de espécies tão distintas…
Mas por enquanto, eles ficam apenas ali jogando conversa fora. Cavaqueando um punhadinho de prosa e ora mais vejam.
 – Comadre Dona Cascavel me diz que o que mata o vivente não é o seu veneno, então?
Nadica de nada, compadre meu Calango.
– E por favor de obséquio, a comadre poderia fazer a fineza de me dizer o que mata, então.
Apois não é o susto, compadre meu Calango.
– Ah, mas essa eu ainda estou pra ver, comadre Dona Cascavel.
– Pois então, assunte e veja, compadre meu Calango.
Digue, comadre Dona Cascavel.
– Tá vendo aquele vivente que ali vem vindo, pé descalço no chão e cabeça nas nuvens, ao vento.
Apois não vejo, transparente como água clara.
Entonce, o compadre vá lá e lhe mordisque o tornozelo, enquanto eu fico aqui, nas encolhas, escondida nessa moita.
– Depois…
– O compadre se camufle aqui nas encolhas que eu apareço desencoberta de meus disfarces.
Dito isso, ficou o feito pelo desfeito.
Cascavel lá nas encolhas e calango no descampado do caminho sem rumo.
O dito distraído viajante, assim que se viu tão visivelmente espicaçado, procurou no rumo de seu desconcerto a origem da picada.
E de repente lá estava ela, Dona Cascavel sanguinolenta, dublê de calango e campeã de blefe e pôquer ao alcance da pontada.
Empeçonhado pela visão do pânico estendida ali ao alcance de um bote, o sujeito teve um surto e caiu mortinho de medo e susto.
Lá no abrigo das encolhas, o coração do Calango batia no ritmo descompassado da paixão.
Agora, ele também era do clube da peçonha.
Avram Ascot
ACF/230520

TRAGUEADO


Epaminondas

Epaminondas, o pantaneiro da cidade, Avram Ascot. 

Abstinência é osso. Osso duro de roer e de quebrar. O tutano fica ali no miolo do desejo,  inalcançável. Complicado. Difícil de alcançar. E o desejante, desinfeliz, revira os olhos: as vontades todas por um triz. Desatino pedindo enxurrada – gotinha d’água que lhe transborde a vida inteira em chuvarada constante e ininterrupta.

Só quem já se viu privado do vício e hábito seu de cada dia sabe o quanto dói uma abstinência. Dor desembestada que analgésico nenhum alcança amenizar. É uma pontada imensa bem lá no meio da vontade. As lonjuras do desejo ali pertinho. No entanto, inatingível.

Álcool e ópio cada um tem o seu, e cada qual sabe o quanto custa deixar o danadinho ali largado no abandono da miséria – a mão em cuia implorando a esmola de um pernoite uma pousada. Sem hospedeiro que lhe dê amparo e abrigo nenhum delito sobrevive.

E para piorar a crueldade dessa triste constatação, vem agora essa uma pandemia. Vírus vindo dos cafundós de nossos medos mais assustadores para nos obrigar todos à abstinência.

Um dia de cada vez, o isolamento vai nos ensinando neuroses e obscenidades impublicáveis. Gulas e taras impensáveis em tempos de livre circulação e embriaguez.

Cobras e lagartos saltam da floresta úmida de nossos medos. Selva tropicaliente de muitas febres e delírios.

Uma simples idinha ao supermercado se transforma num ritual. Cerimonial de muitos ritos e passagens.

De repente, todo mundo começa a usar “roupa de missa” no trivial do dia a dia: essa aqui é só pra sair. Depois, quando voltar tem que ficar lá fora exilada no desterro da área de serviço ou do quintal.

E as máscaras não podem cair, ou ficamos todos ali dando a cara à tapa. A mão do vírus nos acariciando o rosto.

Beijos e abraços estão proibidos e proscritos. Transar então nem pensar, ou o vírus penetra ali na festa e tudo vira infecção.

Aquela cervejinha no boteco, esquece.

Por essa e outras é que não abro mão do Epaminondas, meu jacaré de estimação, especialista em Delirium tremens e escaladas verticais.

Roqueiro dos bons, o pervertido já amanhece o dia cantarolando Pink Floyd – you’re just another brick in the wall.

Pior é que não tira o olho da Dulcinaura, a lagartixa ali do paredão do lado sinistro da força.

Santo Zeus Capitolino, o Epaminondas veve me apoquentando o sossego. Não dá uma trégua.

Desce daí, Epaminondas. Vai quebrar o pescoço, menino!

Avram Ascot

UM SILÊNCIO NA MOLDURA


JARDIM-DO-GUERREIRO-ZEN

Jardim do Guerreiro Zen – Avram Ascot
O menino acordou com uma ideia balançando na cachola. E como chacoalhava! Guizo de cascavel enfeitiçando o ar. Sua peçonha punha veneno na imaginação. E ficava ali espreitando a presa – toda sinuosa e insinuante. Sem hesitar um só instante. O menino era assim, muito insistente…
Queria fotografar o silêncio. E não precisava nem ser um silêncio inteiro, uma restiazinha que fosse já o deixava satisfeito. Um ainda filhotinho já valia a curiosidade de ver a cara risonha da criaturinha ali exposta na moldura sem fim do porta-retratos que trazia impresso nas lonjuras da imaginação.
Já pensou, domar um bicho desses, aprisionando seu rastro bem ali onde todos pudessem ver?!
Isso sim, seria uma proeza e tanto. Uma aventura repleta de muita peripécia e heroísmo. Porque silêncio não é bicho que se mostra por aí assim, sem mais nem menos.
Há que se montar muita armadilha e arapuca, para que o danado se mostre em meio ao burburinho de tantos tagarelas – que insistem em criar ruídos em cativeiro.
Barulho bom vive é solto no descampado das várzeas e emaranhado das matas, compondo a sinfonia do sem fim por esse sertão em fora. E é ali no meio do som, nos vãos e desvãos desse barulho bom, que o silêncio todo prosa se esconde quietinho, lá num cantinho todo inteiro dele.
O menino vivia num minguado sitiozinho lá nas rabeiras de um povoadozinho qualquer. Mas isso só durante as férias. Trinta dias inteiros de muita traquinagem e alforria. O resto do ano era todo gasto na névoa cinzenta da cidade grande, lugar pouco adequado para se tirar a imaginação da coleira e deixar a intuição seguir o faro do instinto, pegando no ar o rastro de uma constelação de aromas.
O menino tinha para cada plano o seu esboço. E trazia todos bem guardados ao alcance das mãos, ali nos bolsos.
Vô você me empresta sua câmera fotográfica, aquela uma de filme de película?
Menino, e onde é que você vai arrumar filme para ela? Essas coisas agora são caríssimas. O menino tinha dessas manias. Também, gostava de discos de vinil. E embora tivesse apenas nove anos, sua imaginação viajava sempre a uma ilha chamada nostalgia. E quanto o enfeitiçava esta magia…
O menino era todo ele liberdade e alforria. Que ideia aquela do avô, que usasse a câmera digital do pai! Se quebrasse, levava uma baita duma surra. Fotografar com celular, também, nem pensar. Silêncio de verdade não tá nem aí pra esses ruídos…
Dois anos inteiros o menino ficou ali, incubando o embrião de sua proeza. Sem mais avisos, o pai resolvera que as férias seriam agora no Nordeste. Mais de um ano inteiro sem ir ao sítio, foi uma eternidade em que seu projeto dormiu no descampado e ao relento. Ao sabor de vento e chuva, ao deus-dará. Vai que não dá.
A adolescência ali se avizinhando fazia a cara risonha do silêncio se esquivar. Logo, já não seria visível em qualquer lugar.
Silêncio, isso é coisa que se vá lá fotografar?!
Cá e acolá, já começavam dele a desconfiar. Pouca gente para ajudar, um tantão assim pra sacanear. A fama de maluquinho que nem fofoca a se espalhar.
Fotografar o silêncio!?
Até que um dia numa aula de História uma ideia veio lhe salvar.
Óbvio, a pro de Ciências teve que ajudar. Com aqueles olhões irrequietos, ela era mesmo de se admirar. Luz para dar e transbordar…
Diz que sem mais nem porquê o menino descobriu, numa aula sobre a origem da fotografia, que com uma caixa de sapato, lupa, tesoura, cola, papel vegetal e uma cartolina preta – podia fazer uma máquina fotográfica.
Eureca. Agora sim, ele seria capaz de apanhar em qualquer raiozinho de luz a cara arisca do silêncio. Periga até mesmo que algum fantasma lhe acenasse com cara bem-criada e amigável.
Quando a traquitana ficou pronta, com a ajuda da pro de Arte e a de Ciências, ele foi todo prosa tirar onda de cientista – contar vantagem pra galera.
Naquele seu aniversário, nenhum outro presente ele quis além de um pacotinho de papel fotográfico e um tiquinho de tudo mais que a gente precisa para tirar do escuro lá da câmera um retrato. Pode ser, né pai?
No sítio, foi a primeira coisa que mostrou para o avô todo sorridente – olha aqui a minha máquina que eu mesmo fiz, vôzão. Funciona e muito bem, tá sabendo?!
O avô sabia, por isso nem estranhou quando o menino começou a sumir o dia inteiro perdido nas lonjuras do bater perna por aí. Um sorriso enorme estampado na esperança de esbarrar com um silenciozinho qualquer, que distraído se deixasse apanhar.
Feito fosse arapuca, montava sua engenhoca cada dia em um lugar. Ainda bem que o vô me fez esse tripé aqui, eu é que não aguentava ficar o dia inteiro segurando esse troço aqui nos ombros.
Mas o silêncio nunca que se deixava fotografar, sempre escondido para além de onde a vista pode alcançar: todo tímido, retraído e assustadiço – até dos ouvidos ele costumava se esquivar.
Dias a fio no fio daquela conversa afiada que o silêncio insistia em desfiar até que um dia, aconteceu.
Na margem do ribeirão dependurado no olho de um redemoinho o silêncio balançava, tirando a sesta numa rede. O menino apontou a câmera, bem ali na direção de onde vinha o vento, e pimba. Lá estava o bicho fechadinho na armadilha. O espanto desenhado na cara lambuzada de surpresa. O assombro lhe escorrendo pelas ventas. Ora, mas veja: Como é quê!?
Trancado no escuro do quartinho de ferramentas do avô, o menino era todo euforia – quando viu surgir na moldura sem margem do papel, num gesto leve e esvoaçante, a cara alegre do silêncio.
No vazio entre as duas margens do ribeirão, para além de onde o desenho das árvores alcança – nada em volta. Apenas, o silêncio dormindo a sesta num qualquer fim de tarde do mês de junho – o vento soprando o primeiro frio do ano.
Avram Ascot
ACF/170420

DE REPENTE


Ponte-Magiar

Ponte Magiar – Avram Ascot
Sempre regresso de mim para um abandono maior. 
Mia couto
De repente, me surpreendo imaginando coisas que são delírio puro. Dia desses, tudo isso vai virar literatura. Mas, por ora, são só alucinações: psicodelia em estado de mineração. Arco-íris bruto pedindo lapidação. Falso brilhante. Pirita. Ouro de tolo. Marca de batom multicolorido na lapela da imaginação.
Acordo no meio da noite e lá está, num canto qualquer de um sonho esquecido, aquele perfume que não me sai da cabeça. Um aroma mediterrâneo diluído numa fragrância de mar do Caribe. Sempre-vivas exibindo um decote dama-da-noite: seios fartos saltando da órbita de olhares cheios de malícia e malemolência – requebros dos quadris do desejo.
Acendo um cigarro e na fumaça que ascende, incensos deixam escapar, numa única essência, muitos buquês e aromas. Frescor de um hálito que só um certo sorriso exala.
Abro a janela, o silêncio faz uma pausa e com três traços desenha em aquarela uma sinfonia de muitos sons e imagens. Adormeço em bemol, acordo em sustenido. Olhos abertos, ouvidos atentos.
Sim, ando imaginado coisas que são pura alucinação.  Pode que eu tenha sido possuído por algum feitiço. Qualquer hora, tudo isso vira literatura. Mas por enquanto, é só delírio. O desejo mexendo com as vontades da libido.
A ideia não vem, tarda ou se atrasa – e a imaginação começa a inventar pretextos para investigar o lado obscuro dos sonhos: o avesso da ficção, via inversa da fantasia.
Fico horas ali olhando o olho do redemoinho. A luz no olhar do Quixote parindo monstros que não cabem nos moinhos que invento.
Dulcineia quase nunca não está.
E eu que tantos homens já fui, imagino ser aquele em cuja ausência olhar dela se esquece.
Dia desses tudo isso ainda vira alucinação, delírio em estado bruto. Por enquanto, é só literatura. Arco-íris de letras parindo estórias. Desenredo de minhas fantasias.
Avram Ascot
ACF/290320
        

PARIR UMA CRÔNICA


rabisco-na-parede

Rabisco na parede – Avram Ascot

 

Onde eu não estou, as palavras me acham.
Manuel de Barros
Hoje acordei com uma vontade danada de parir uma crônica, mas sem nenhum assunto decente que me fecundasse a imaginação as ideias ficaram ali, virgenzinhas, sonhando com orgias. Os desejos todos à flor da libido, prenhes de vontades impublicáveis.
A semente crescente lá no de dentro do vazio da cachola esperando o gérmen que a fizesse explodir: bendito fruto entre as ideias. A abstinência contrastando com o desejo latente, escondido nas lonjuras de onde mora o tesão.
Sei que basta o gesto, a carícia, o toque o afago da palavra certa e as ideias brotam num jorro incontrolável de orgasmo. Mas como despertar a libido contida de uma ideia com recatos de celibatário e comportamento de abstêmio?
O melhor mesmo é sair por aí buscando no submundo das orgias incontroláveis qualquer ideia devassa que se queira vender de corpo e alma numa qualquer bacanal de esquina.
Mas as ideias hoje estão todas recatadas e do outro lado do Paraíso. Não se vendem assim tão fácil aos caprichos de um qualquer escrevinhador.
Sendo assim ou não, fico aqui infértil e estéril sonhando em dar à luz uma crônica que a essas alturas deve andar a anos luz daqui bem pra lá da puta que a imprimiu.
Avram Ascot
ACF/260320

ORIGINAIS DO DRAMA


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Pela direção em que os ventos sopram no Patriarcado de Terraplana, não é de se estranhar. Mas de uns tempos para cá, boa parte dos brasileiros foi acometida da síndrome do marido traído – meio mundo procurando comunistas embaixo da cama, numa paranoia esquizoide digna de figurar no História da Loucura na Idade Clássica, de Foucault.
Sei que essa histeria toda nada tem de clássica e que vivemos uma hipermodernidade esquizoide, mas citar Foucault dá um certo frisson. Afinal, eu agora também passarei a ser procurado embaixo da cama de muita gente. Sim, porque embora Foucault seja um culturalista, para muito obstinado aí – ele é comunista, sim senhor! Com todos os “cês” e exclamações a que se tem direito.
O pior é que, pra toda essa gente aí, o “comunismo” é um balaio de gatos no qual cabem desde o santo papa Francisco até o filhote do déspota que o pariu Kim Jong Un, ditadorzinho de muitos faniquitos e cacoetes.
A doideira é tanta que o povo vê comunista em tudo quanto é canto. Professor pede aumento de salário, comuna. Dona de casa reclama do preço da berinjela, comunaça. Pobre, índio, quilombola, feminista, lgbtx reivindicando direitos, tudo subversivo. E merece mesmo é ser mandado em avião fretado pra Cuba, ou qualquer outra ilha na qual o azul do mar seja vermelhinho como delírio bolchevique dessa cambada de comunista dos infernos.
Diz que já tem até uma campanha, encabeçada por um certo presidento aí, para tirar o vermelho da paleta de nossas cores primárias. Na churrascaria, no estúdio ou ateliê – nossa paleta jamais será vermelha!
Como seria uma aporrinhação sem tamanho esclarecer no medievalismo das redes sociais o que é materialismo histórico e teoria marxista. Relaxo, bebericando uma irish red ale ao som de Strawberry fields forever.
E enquanto bebo desendoideço imaginando roqueiros e leprechauns subversivos. Afinal, misturar cerveja com morangos vermelhos só pode ser mesmo coisa de comunista.
Avram Ascot
ACF 020320