JUST STANDING IN A DOORWAY


Galgos

 

 

Watching girls go passing by
It ain’t the latest thing
I’m just standing in a doorway
I’m just trying to make some sense
 Out of these girls go passing by
The tales they tell of men
 Jagger/K. Richards

 

O homem veio vindo, olhos vidrados na vitrine sem vidro do decote da moça. O sorriso destilando a embriaguez sem álcool da libido incontida. Na cara deslavada, o ar de tranquilidade era o esboço de desejos impublicáveis. Aquele sossego era pura euforia.
Distraída, a moça só tinha olhos para a elegância sutil de seus pets. O irrequieto casal de galgos que levava ali pela coleira. Os cães eram puro alvoroço e alegria. Leves e esguios eram a personificação da elegância desfeita em harmonia. Puro equilíbrio e simetria.
Envolvido na distração de seus impulsos, o homem foi-se aproximando da moça – olhos fixos na razão de seu deleite. A excitação fazendo festa em seu alvoroço. O bom humor abrindo sorrisos em seu entusiasmo.
E assim que se viram frente a frente, a distraída e o desatento, ele lentamente se abaixou, acariciou os cães com desinteresse e inquietação. E, no frenesi da embriaguez, olhos postos na vitrine sem vidro de seus delírios e transparências, sussurrou – eles são lindos!
Desatenta e displicente, com estudada indiferença, ela responde, enquanto acaricia… Os cães – eles também gostaram de você.
Sem desconcerto que lhe compensasse a decepção, com incontida malícia e agilidade, ele acrescenta – eu me referia aos seus… Olhos.

 

Avram Ascot
              ACF/020817   

APARIÇÃO


MATITEPERÊ-UM-SACI-NA-ALMA

Matitaperê, um saci na alma. Avram Ascot
Muita gente vai dizer que perdi o juízo, o bom senso e a razão. Mas tenho aqui comigo inédita e extraordinária uma desabusada confissão. Dessas bem impublicáveis: toda despudorada e sem-vergonha.
Periga até que digam que sou um desmiolado bem alucinado e delirante. Mas desatinos e desacordos à parte, a verdade é que…  Eu acredito em assombração.
E em Saci. Mais ainda, eu vejo Saci. Um deles até já me livrou de uma assombração.
Muita gente deve estar achando tudo isso uma imensa maluqueira repleta de desacordos e contrassensos. Uma barbaridade bem tresloucada e delirante.
Mas quem tá rindo é quem nunca andou pelo mato adentro, cruzando sozinho muita campina e descampado, os olhos dos bichos espreitando os passos. A voz do vento soprando bestagem na imaginação para além de onde mora a fantasia. Calafrios e tremeliques balançando o corpo todo inteiro feito a gente fosse um bambual de vara-verde.
O amigo por acaso já topou um amontoado de orelha-de-pau no decampado duma clareira, achatada entre o matagal e uma colina, a cara lavada do fungo ali lhe espiando com ares inocentes de bolor e levedura?
Tudo armadilha. Disfarce e impostura. Cada bolorzinho daquele é um embrião de assombração.  A sementinha de um susto guardada no ventre da madeira. 
Aquilo ali é um cemitério inteiro de Saci.  Repleto de trique, saçurá e cecerê. Ou o amigo não sabe que o arteiro se fina em orelha-de-pau?
Danado esse matitaperê.
Mas arrepio mesmo, desses de provocar mil tremores e mais uma porção de estremecimentos é topar com um bambuzal no ermo do capinzal deserto.
É ali que entre chiados e rangidos nasce o Saci. Zunidos e murmúrios parindo sustos na imaginação da gente.
O vivente fica ali, todo bambo e esbodegado.  
Dentes e joelhos viram uma tremedeira só. O tique-taque do coração pura pancadaria e batedeira.
No meio do capinzal, cada gomo de bambu é o embrião de um redemoinho que guarda em seu rebojo a semente dum saci.
Basta soprar um ventinho, e pronto.  Do meio do bambual, bem no olho do redemoinho, brota um saci. O coral da carapuça envenenando a imaginação da gente.
Só quem já caminhou no desabrigo de uma campina, o vento zumbindo no vazio do descampado, sabe o quanto tem de aparição no rebolir do capinzal.
Basta o mato bulir pra imaginação se agigantar.
E a gente fica ali, alma de outro mundo, assombração em desamparo.  Visagem em abandono.
Alucinação e faz-de-conta.
Avram Ascot
ACF/280620

O GUIZO DA CASCAVEL


cobras-e-lagartos

Cobras & lagartos – Avram Ascot
Desfazer o normal há de ser uma norma.
Manoel de Barros.
Lá no meio do descampado do sertão, levavam um dedim de prosa Dona Cobra e Compadre Calango.
Dona Cobra era uma cascavel sanguinolenta, dessas de guizo sibilante e chocalho barulhento. O triangulo da cabeça, uma sinfonia de maus presságios. Indícios de mau agouro.
Aquela cara era o espanto no medo de muita gente.
Compadre Calango era um TeídeoAmeiva leso e desimportante. Lagartinho verde, sem grandes ambições. Quarenta e cinco centímetros de pura ligeireza e agitação. Mas pacato e imperturbável como um monge.
Aquela estampa não figurava no repertório dos medos de ninguém.
Mas dessa oposição nasceu uma amizade, que era em tudo um contraste de avessos. De um lado toda aquela ferocidade e danação. Pura força, exuberância e irritação. Do outro, muita tranquilidade, equilíbrio e mansidão. 
A fera e o feio era uma dupla de arrepiar cabelo em pé.
Aquilo ali em boa coisa não ia dá. Ninguém que não cria naquela amizade de afetos tão distintos.
Bem que um dia a camaradagem de toda aquela convivência e compadrio podia dar de cara com a parede. Burros e vacas se afogando em brejos e águas profundas.
Pior ainda…
Já imaginou, se no lapso dum descuido esses dois inventam, por desleixo da paixão, qualquer passatempo libidinoso que lhes suba a cabeça e às vontades?
Boa coisa não ia dá um cruzamento de espécies tão distintas…
Mas por enquanto, eles ficam apenas ali jogando conversa fora. Cavaqueando um punhadinho de prosa e ora mais vejam.
 – Comadre Dona Cascavel me diz que o que mata o vivente não é o seu veneno, então?
Nadica de nada, compadre meu Calango.
– E por favor de obséquio, a comadre poderia fazer a fineza de me dizer o que mata, então.
Apois não é o susto, compadre meu Calango.
– Ah, mas essa eu ainda estou pra ver, comadre Dona Cascavel.
– Pois então, assunte e veja, compadre meu Calango.
Digue, comadre Dona Cascavel.
– Tá vendo aquele vivente que ali vem vindo, pé descalço no chão e cabeça nas nuvens, ao vento.
Apois não vejo, transparente como água clara.
Entonce, o compadre vá lá e lhe mordisque o tornozelo, enquanto eu fico aqui, nas encolhas, escondida nessa moita.
– Depois…
– O compadre se camufle aqui nas encolhas que eu apareço desencoberta de meus disfarces.
Dito isso, ficou o feito pelo desfeito.
Cascavel lá nas encolhas e calango no descampado do caminho sem rumo.
O dito distraído viajante, assim que se viu tão visivelmente espicaçado, procurou no rumo de seu desconcerto a origem da picada.
E de repente lá estava ela, Dona Cascavel sanguinolenta, dublê de calango e campeã de blefe e pôquer ao alcance da pontada.
Empeçonhado pela visão do pânico estendida ali ao alcance de um bote, o sujeito teve um surto e caiu mortinho de medo e susto.
Lá no abrigo das encolhas, o coração do Calango batia no ritmo descompassado da paixão.
Agora, ele também era do clube da peçonha.
Avram Ascot
ACF/230520

TRAGUEADO


Epaminondas

Epaminondas, o pantaneiro da cidade, Avram Ascot. 

Abstinência é osso. Osso duro de roer e de quebrar. O tutano fica ali no miolo do desejo,  inalcançável. Complicado. Difícil de alcançar. E o desejante, desinfeliz, revira os olhos: as vontades todas por um triz. Desatino pedindo enxurrada – gotinha d’água que lhe transborde a vida inteira em chuvarada constante e ininterrupta.

Só quem já se viu privado do vício e hábito seu de cada dia sabe o quanto dói uma abstinência. Dor desembestada que analgésico nenhum alcança amenizar. É uma pontada imensa bem lá no meio da vontade. As lonjuras do desejo ali pertinho. No entanto, inatingível.

Álcool e ópio cada um tem o seu, e cada qual sabe o quanto custa deixar o danadinho ali largado no abandono da miséria – a mão em cuia implorando a esmola de um pernoite uma pousada. Sem hospedeiro que lhe dê amparo e abrigo nenhum delito sobrevive.

E para piorar a crueldade dessa triste constatação, vem agora essa uma pandemia. Vírus vindo dos cafundós de nossos medos mais assustadores para nos obrigar todos à abstinência.

Um dia de cada vez, o isolamento vai nos ensinando neuroses e obscenidades impublicáveis. Gulas e taras impensáveis em tempos de livre circulação e embriaguez.

Cobras e lagartos saltam da floresta úmida de nossos medos. Selva tropicaliente de muitas febres e delírios.

Uma simples idinha ao supermercado se transforma num ritual. Cerimonial de muitos ritos e passagens.

De repente, todo mundo começa a usar “roupa de missa” no trivial do dia a dia: essa aqui é só pra sair. Depois, quando voltar tem que ficar lá fora exilada no desterro da área de serviço ou do quintal.

E as máscaras não podem cair, ou ficamos todos ali dando a cara à tapa. A mão do vírus nos acariciando o rosto.

Beijos e abraços estão proibidos e proscritos. Transar então nem pensar, ou o vírus penetra ali na festa e tudo vira infecção.

Aquela cervejinha no boteco, esquece.

Por essa e outras é que não abro mão do Epaminondas, meu jacaré de estimação, especialista em Delirium tremens e escaladas verticais.

Roqueiro dos bons, o pervertido já amanhece o dia cantarolando Pink Floyd – you’re just another brick in the wall.

Pior é que não tira o olho da Dulcinaura, a lagartixa ali do paredão do lado sinistro da força.

Santo Zeus Capitolino, o Epaminondas veve me apoquentando o sossego. Não dá uma trégua.

Desce daí, Epaminondas. Vai quebrar o pescoço, menino!

Avram Ascot

UM SILÊNCIO NA MOLDURA


JARDIM-DO-GUERREIRO-ZEN

Jardim do Guerreiro Zen – Avram Ascot
O menino acordou com uma ideia balançando na cachola. E como chacoalhava! Guizo de cascavel enfeitiçando o ar. Sua peçonha punha veneno na imaginação. E ficava ali espreitando a presa – toda sinuosa e insinuante. Sem hesitar um só instante. O menino era assim, muito insistente…
Queria fotografar o silêncio. E não precisava nem ser um silêncio inteiro, uma restiazinha que fosse já o deixava satisfeito. Um ainda filhotinho já valia a curiosidade de ver a cara risonha da criaturinha ali exposta na moldura sem fim do porta-retratos que trazia impresso nas lonjuras da imaginação.
Já pensou, domar um bicho desses, aprisionando seu rastro bem ali onde todos pudessem ver?!
Isso sim, seria uma proeza e tanto. Uma aventura repleta de muita peripécia e heroísmo. Porque silêncio não é bicho que se mostra por aí assim, sem mais nem menos.
Há que se montar muita armadilha e arapuca, para que o danado se mostre em meio ao burburinho de tantos tagarelas – que insistem em criar ruídos em cativeiro.
Barulho bom vive é solto no descampado das várzeas e emaranhado das matas, compondo a sinfonia do sem fim por esse sertão em fora. E é ali no meio do som, nos vãos e desvãos desse barulho bom, que o silêncio todo prosa se esconde quietinho, lá num cantinho todo inteiro dele.
O menino vivia num minguado sitiozinho lá nas rabeiras de um povoadozinho qualquer. Mas isso só durante as férias. Trinta dias inteiros de muita traquinagem e alforria. O resto do ano era todo gasto na névoa cinzenta da cidade grande, lugar pouco adequado para se tirar a imaginação da coleira e deixar a intuição seguir o faro do instinto, pegando no ar o rastro de uma constelação de aromas.
O menino tinha para cada plano o seu esboço. E trazia todos bem guardados ao alcance das mãos, ali nos bolsos.
Vô você me empresta sua câmera fotográfica, aquela uma de filme de película?
Menino, e onde é que você vai arrumar filme para ela? Essas coisas agora são caríssimas. O menino tinha dessas manias. Também, gostava de discos de vinil. E embora tivesse apenas nove anos, sua imaginação viajava sempre a uma ilha chamada nostalgia. E quanto o enfeitiçava esta magia…
O menino era todo ele liberdade e alforria. Que ideia aquela do avô, que usasse a câmera digital do pai! Se quebrasse, levava uma baita duma surra. Fotografar com celular, também, nem pensar. Silêncio de verdade não tá nem aí pra esses ruídos…
Dois anos inteiros o menino ficou ali, incubando o embrião de sua proeza. Sem mais avisos, o pai resolvera que as férias seriam agora no Nordeste. Mais de um ano inteiro sem ir ao sítio, foi uma eternidade em que seu projeto dormiu no descampado e ao relento. Ao sabor de vento e chuva, ao deus-dará. Vai que não dá.
A adolescência ali se avizinhando fazia a cara risonha do silêncio se esquivar. Logo, já não seria visível em qualquer lugar.
Silêncio, isso é coisa que se vá lá fotografar?!
Cá e acolá, já começavam dele a desconfiar. Pouca gente para ajudar, um tantão assim pra sacanear. A fama de maluquinho que nem fofoca a se espalhar.
Fotografar o silêncio!?
Até que um dia numa aula de História uma ideia veio lhe salvar.
Óbvio, a pro de Ciências teve que ajudar. Com aqueles olhões irrequietos, ela era mesmo de se admirar. Luz para dar e transbordar…
Diz que sem mais nem porquê o menino descobriu, numa aula sobre a origem da fotografia, que com uma caixa de sapato, lupa, tesoura, cola, papel vegetal e uma cartolina preta – podia fazer uma máquina fotográfica.
Eureca. Agora sim, ele seria capaz de apanhar em qualquer raiozinho de luz a cara arisca do silêncio. Periga até mesmo que algum fantasma lhe acenasse com cara bem-criada e amigável.
Quando a traquitana ficou pronta, com a ajuda da pro de Arte e a de Ciências, ele foi todo prosa tirar onda de cientista – contar vantagem pra galera.
Naquele seu aniversário, nenhum outro presente ele quis além de um pacotinho de papel fotográfico e um tiquinho de tudo mais que a gente precisa para tirar do escuro lá da câmera um retrato. Pode ser, né pai?
No sítio, foi a primeira coisa que mostrou para o avô todo sorridente – olha aqui a minha máquina que eu mesmo fiz, vôzão. Funciona e muito bem, tá sabendo?!
O avô sabia, por isso nem estranhou quando o menino começou a sumir o dia inteiro perdido nas lonjuras do bater perna por aí. Um sorriso enorme estampado na esperança de esbarrar com um silenciozinho qualquer, que distraído se deixasse apanhar.
Feito fosse arapuca, montava sua engenhoca cada dia em um lugar. Ainda bem que o vô me fez esse tripé aqui, eu é que não aguentava ficar o dia inteiro segurando esse troço aqui nos ombros.
Mas o silêncio nunca que se deixava fotografar, sempre escondido para além de onde a vista pode alcançar: todo tímido, retraído e assustadiço – até dos ouvidos ele costumava se esquivar.
Dias a fio no fio daquela conversa afiada que o silêncio insistia em desfiar até que um dia, aconteceu.
Na margem do ribeirão dependurado no olho de um redemoinho o silêncio balançava, tirando a sesta numa rede. O menino apontou a câmera, bem ali na direção de onde vinha o vento, e pimba. Lá estava o bicho fechadinho na armadilha. O espanto desenhado na cara lambuzada de surpresa. O assombro lhe escorrendo pelas ventas. Ora, mas veja: Como é quê!?
Trancado no escuro do quartinho de ferramentas do avô, o menino era todo euforia – quando viu surgir na moldura sem margem do papel, num gesto leve e esvoaçante, a cara alegre do silêncio.
No vazio entre as duas margens do ribeirão, para além de onde o desenho das árvores alcança – nada em volta. Apenas, o silêncio dormindo a sesta num qualquer fim de tarde do mês de junho – o vento soprando o primeiro frio do ano.
Avram Ascot
ACF/170420

DE REPENTE


Ponte-Magiar

Ponte Magiar – Avram Ascot
Sempre regresso de mim para um abandono maior. 
Mia couto
De repente, me surpreendo imaginando coisas que são delírio puro. Dia desses, tudo isso vai virar literatura. Mas, por ora, são só alucinações: psicodelia em estado de mineração. Arco-íris bruto pedindo lapidação. Falso brilhante. Pirita. Ouro de tolo. Marca de batom multicolorido na lapela da imaginação.
Acordo no meio da noite e lá está, num canto qualquer de um sonho esquecido, aquele perfume que não me sai da cabeça. Um aroma mediterrâneo diluído numa fragrância de mar do Caribe. Sempre-vivas exibindo um decote dama-da-noite: seios fartos saltando da órbita de olhares cheios de malícia e malemolência – requebros dos quadris do desejo.
Acendo um cigarro e na fumaça que ascende, incensos deixam escapar, numa única essência, muitos buquês e aromas. Frescor de um hálito que só um certo sorriso exala.
Abro a janela, o silêncio faz uma pausa e com três traços desenha em aquarela uma sinfonia de muitos sons e imagens. Adormeço em bemol, acordo em sustenido. Olhos abertos, ouvidos atentos.
Sim, ando imaginado coisas que são pura alucinação.  Pode que eu tenha sido possuído por algum feitiço. Qualquer hora, tudo isso vira literatura. Mas por enquanto, é só delírio. O desejo mexendo com as vontades da libido.
A ideia não vem, tarda ou se atrasa – e a imaginação começa a inventar pretextos para investigar o lado obscuro dos sonhos: o avesso da ficção, via inversa da fantasia.
Fico horas ali olhando o olho do redemoinho. A luz no olhar do Quixote parindo monstros que não cabem nos moinhos que invento.
Dulcineia quase nunca não está.
E eu que tantos homens já fui, imagino ser aquele em cuja ausência olhar dela se esquece.
Dia desses tudo isso ainda vira alucinação, delírio em estado bruto. Por enquanto, é só literatura. Arco-íris de letras parindo estórias. Desenredo de minhas fantasias.
Avram Ascot
ACF/290320
        

PARIR UMA CRÔNICA


rabisco-na-parede

Rabisco na parede – Avram Ascot

 

Onde eu não estou, as palavras me acham.
Manuel de Barros
Hoje acordei com uma vontade danada de parir uma crônica, mas sem nenhum assunto decente que me fecundasse a imaginação as ideias ficaram ali, virgenzinhas, sonhando com orgias. Os desejos todos à flor da libido, prenhes de vontades impublicáveis.
A semente crescente lá no de dentro do vazio da cachola esperando o gérmen que a fizesse explodir: bendito fruto entre as ideias. A abstinência contrastando com o desejo latente, escondido nas lonjuras de onde mora o tesão.
Sei que basta o gesto, a carícia, o toque o afago da palavra certa e as ideias brotam num jorro incontrolável de orgasmo. Mas como despertar a libido contida de uma ideia com recatos de celibatário e comportamento de abstêmio?
O melhor mesmo é sair por aí buscando no submundo das orgias incontroláveis qualquer ideia devassa que se queira vender de corpo e alma numa qualquer bacanal de esquina.
Mas as ideias hoje estão todas recatadas e do outro lado do Paraíso. Não se vendem assim tão fácil aos caprichos de um qualquer escrevinhador.
Sendo assim ou não, fico aqui infértil e estéril sonhando em dar à luz uma crônica que a essas alturas deve andar a anos luz daqui bem pra lá da puta que a imprimiu.
Avram Ascot
ACF/260320

ORIGINAIS DO DRAMA


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Pela direção em que os ventos sopram no Patriarcado de Terraplana, não é de se estranhar. Mas de uns tempos para cá, boa parte dos brasileiros foi acometida da síndrome do marido traído – meio mundo procurando comunistas embaixo da cama, numa paranoia esquizoide digna de figurar no História da Loucura na Idade Clássica, de Foucault.
Sei que essa histeria toda nada tem de clássica e que vivemos uma hipermodernidade esquizoide, mas citar Foucault dá um certo frisson. Afinal, eu agora também passarei a ser procurado embaixo da cama de muita gente. Sim, porque embora Foucault seja um culturalista, para muito obstinado aí – ele é comunista, sim senhor! Com todos os “cês” e exclamações a que se tem direito.
O pior é que, pra toda essa gente aí, o “comunismo” é um balaio de gatos no qual cabem desde o santo papa Francisco até o filhote do déspota que o pariu Kim Jong Un, ditadorzinho de muitos faniquitos e cacoetes.
A doideira é tanta que o povo vê comunista em tudo quanto é canto. Professor pede aumento de salário, comuna. Dona de casa reclama do preço da berinjela, comunaça. Pobre, índio, quilombola, feminista, lgbtx reivindicando direitos, tudo subversivo. E merece mesmo é ser mandado em avião fretado pra Cuba, ou qualquer outra ilha na qual o azul do mar seja vermelhinho como delírio bolchevique dessa cambada de comunista dos infernos.
Diz que já tem até uma campanha, encabeçada por um certo presidento aí, para tirar o vermelho da paleta de nossas cores primárias. Na churrascaria, no estúdio ou ateliê – nossa paleta jamais será vermelha!
Como seria uma aporrinhação sem tamanho esclarecer no medievalismo das redes sociais o que é materialismo histórico e teoria marxista. Relaxo, bebericando uma irish red ale ao som de Strawberry fields forever.
E enquanto bebo desendoideço imaginando roqueiros e leprechauns subversivos. Afinal, misturar cerveja com morangos vermelhos só pode ser mesmo coisa de comunista.
Avram Ascot
ACF 020320

O CAMINHANTE – Ruínas em círculo


 

Paisagem-azul
Paisagem azul – Avram Ascot
O amanhã tornou-se demasiado longe.
Mia Couto
Aquele silêncio vinha de longes eras. Milênios sem fim – a eternidade calando segredos. No ermo da campina tudo era um imenso vazio. Ninguém ali no meio do nada: léguas e léguas de um vazio sem fim.
Por todos os lados o capinzal corria ondulando rente ao chão. Mata rasteira bailando com o vento.  Sob a garoa fina, a neblina era amásia do frio. Amante e confidente de seus mandos e desmandos.
Congelado no tempo, tudo em volta era um mundo esquecido de gente. Desabitado, remoto, afastado, silencioso e sem vida.
Sozinho no meio de toda aquela imensidão, o homem sem nome se deu conta: estava perdido. Sem medo, ansiedade ou expectativas – seguiu em frente. Os olhos vagos e vazios pregados na superfície do nada.
Horas sem conta andou rumo a lugar nenhum. Seguindo apenas sua total ausência de instintos.  Nem mesmo lembrava que tipo de animal foi, era ou seria. Sabia apenas que respirava e vivia. E isso não incomodava, nem doía. Tão somente acontecia.
Sentia fome, sede, cansaço. E aquele imenso vazio dentro de si era tudo o quanto tinha.  De verdade mesmo, nem lembrava como ou quando chegara ali. Desde sempre seu ofício era andar. Sem rumo ou propósito. Apenas andar.
Andava para não ter que pensar. Mas quanto mais andava, mais os pensamentos o perseguiam. Não sabia o quê nem por que pensava. Mas angustiadamente, pensava. Mil ideias ruminando ali na cachola.
E ele assim sem qualquer ideia, mínima que fosse, de quem era. De como chegara ali.  E aquilo nem sequer o inquietava. Apenas pesava como um membro que se tivesse atrofiado.
Sem que percebesse se esquecia de si. Talvez de verdade já nem mais existisse. E se tudo aquilo não passasse de um sonho?  Quem dera. Se ao menos dormisse.  Mas não dormia. Qualquer coisa dentro doida e doída dizia que há perigo nos sonhos.
Tempestades imensas zunindo nos ouvidos. O homem sem nome era um primata esquecido dos deuses.
Sem armas ou qualquer outro artefato que lhe valesse uma aventura, suas mãos eram as únicas ferramentas de que dispunha para cavar seu sustento.  Mas ali na imensidão de todo aquele vazio nada existia que pudesse ser colhido ou caçado.
Mesmo sem que percebesse, o homem sem nome era um sem rumo.  Mas isso pouco importava, por mais que andasse ele nunca se achava.  Ali no meio do nada, todos os caminhos levavam a lugar nenhum. Nenhuma vila, aldeia ou habitação.
Tudo em volta era um descampado só.
O vazio.
Era já quase noite, quando percebeu que naquele, como em todos os outros dias, não chegaria a lugar nenhum.  Então, antes que escurecesse, recolheu uns gravetos e com uma engenhoca que maquinou ali na hora, fez fogo, acendeu uma fogueira.
Depois, desolado e maltrapilho, tirou lá do meio dos farrapos que vestia uma gaita ensebada e mirradinha.  E ficou ali soprando melancólico uma melodia, enquanto a noite não vinha.
Depois da longa travessia, logo era outro dia.

 

Avram Ascot
ACF241219

Presidente Johnny Bravo


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Johnny Bravo é um personagem de desenho animado que “pensa” com os músculos. Obtuso e imaturo, tem atitudes e comportamentos típicos de um pré-adolescente mimado. Seu vocabulário é tão amplo quanto suas ambições: encontrar uma namorada.
Criado como uma sátira do super-herói ensimesmado e inverossímil, Bravo é a caricatura de uma caricatura.
Do ponto de vista psicopedagógico cumpre a função de mostrar às crianças, de forma bem humorada e lúdica, o imenso abismo que há entre ficção e realidade.  Se atinge ou não o objetivo já são outros quinhentos, como diriam as vovozinhas de antanho.
Bravo, assim como Maxwell Smart, o “antigo” Agente 86, é uma sátira bem-humorada do super-herói invencível. De maneira despretensiosa e pouco ortodoxa discute a ideia do além-homem de Nietzsche.
Até aí, tudo bem. É a indústria cultural, sempre padronizadora e repetitiva, rindo de si mesma e rir de si mesmo é sempre saudável. Ajuda a desenvolver a autocrítica. Pessoas inteligentes e bem resolvidas fazem isso o tempo todo. Na ficção e fora dela.
Para os cinéfilos de carteirinha de todo o planeta é uma delícia ver como o excelente Jean-Paul Belmondo se diverte interpretando o impagável Bob Saint Clair, no extraordinário longa-metragem Le magnifique, de Philippe de Broca.
Mas tanto a ficção quanto a realidade têm seus limites e fronteiras e para além deles viver é quase sempre um perigo. Por isso, quando o presidente da maior nação da América Latina se compara ao caricato Bravo, completando a frase com um sonoro “porra” a ficção ultrapassa os limites da verossimilhança e a realidade vira um imenso conto da carochinha, repleto de burros “falantes” e asnos “pensantes”.
Que o atual presidente é um grande canastrão, todos sabem. O ar meio apalermado e olhar perdido que exibe nos compromissos e cerimonias oficiais revelam não apenas o seu despreparo para o exercício da presidência, mas também sua completa falta de inteligência e sua total inabilidade como articulador político.
Vá lá, nem todos nascem inteligentes e não se pode exigir de ninguém aquilo que não tem para dar. Mas será que entre seus assessores não existe um caboclinho sequer com um mínimo de sensatez para dizer que qualquer presidente latino-americano que queira ser lembrado como “mito” deve se comparar a gente como Simón Bolívar, José Artigas, San Martin, Bernardo O’Higgins e nunca a Johnny Bravo?
Uma pena que a ambição máxima do presidente da oitava economia do mundo seja transformar-se num personagem de Hanna-Barbera.
O incidente lembra uma máxima do saudoso escritor argentino Jorge Luis Borges sobre o General Leopoldo Gualtieri, ditador e presidente da Argentina entre 1981 e 1982, “A ambição de Gualtieri era ser Perón. Nunca conheci ambição mais modesta”.
Se a ambição de Gualtieri era modesta, imagine a do JB dos trópicos.

Avram Ascot

ACF/070819

CÚMPLICES


Après le café

Après le café – Aquarela – Avram Ascot
Num breve esboço – o sorriso.
Olhos nos olhos – sem medo: o beijo.
Depois, leve, lento, suave: o abraço…
Sem muito esforço, carícias.
Como velhos amigos, segredos.
Muito em breve – sem rodeios, em meio à multidão – passo a passo: a música, a dança, o balé.
Sem esquivas: a cama, os lençóis…
Toques, marcas, rastos – vestígios no corpo…
Tremor, arrepios – o momento, o instante:
Outras delícias…
No ar muitos suspiros e pistas.
Sempre a primeira vez, nunca a última chance.
O aqui e o agora – o suor e o cansaço:
Sempre bem-vindos.
Riso no aconchego do colo acolhido.
A dama da noite em silêncio: sua força e vigor – sal e salsa em flor…
Seu esconderijo, seu nome – secreto desejo.
Debaixo de sete chaves (bem quietinho) o segredo: seus mimos, seus dengos.
Seu perfume, estrela cadente, nalgum cantinho escondido da mente.
Zoé Repentista
ACF0150719